top of page
Buscar

Descansar Também é Trabalhar pela Saúde Mental

  • Foto do escritor: Silvia Helena
    Silvia Helena
  • há 3 dias
  • 3 min de leitura

Depois de alguns dias de recesso, voltei aos atendimentos com uma sensação que sempre se repete: descansar faz diferença. Não apenas porque voltamos com mais energia, mas porque voltamos mais presentes.


Como psicóloga, trabalho com algo que exige atenção, escuta, sensibilidade e disponibilidade emocional. Nenhuma dessas habilidades pode ser mantida indefinidamente quando ignoramos nossos próprios limites. A pausa não interrompe o trabalho; ela faz parte dele.


Infelizmente, vivemos em uma cultura que parece admirar a exaustão. É comum ouvirmos frases como “estou trabalhando sem parar”, “não tive férias”, “durmo poucas horas” ou “não consigo desligar”. Muitas vezes, essas afirmações são recebidas como demonstrações de comprometimento ou sucesso. O cansaço virou uma espécie de medalha.


Mas existe uma diferença importante entre sentir-se cansado por fazer aquilo que ama e viver permanentemente esgotado.


Quem encontra propósito no próprio trabalho é, de certa forma, privilegiado. Poucas pessoas têm essa oportunidade. O problema começa quando até aquilo que amamos ocupa todos os espaços da nossa vida. Quando o trabalho deixa de ser uma parte da nossa identidade para se tornar toda a nossa identidade. Nesse momento, deixamos de produzir por realização e passamos a produzir por necessidade constante de provar valor.


Os estoicos, especialmente Sêneca, traziam uma reflexão muito atual para esse tema. Embora a frase seja frequentemente adaptada, sua essência permanece extremamente relevante: somos seres humanos, não fazeres humanos.


O trabalho pode nos proporcionar conforto, estabilidade financeira, reconhecimento, influência e status. Tudo isso tem seu valor. Mas nenhuma dessas conquistas substitui aquilo que realmente constrói uma vida boa.


As virtudes não nascem do excesso de trabalho. A paciência é exercitada nas relações. A generosidade aparece no tempo que oferecemos às pessoas. A coragem se revela nas decisões difíceis. A temperança nos ajuda a reconhecer quando já fizemos o suficiente e quando é hora de parar. Nenhuma dessas qualidades depende de trabalhar doze horas por dia.


Como psicóloga, percebo que muitas pessoas justificam ausências importantes dizendo que estão fazendo tudo “pela família”. E, sem perceber, acabam perdendo justamente aquilo que desejavam proteger.


Filhos não se lembrarão da quantidade de reuniões que seus pais participaram. Lembrarão dos cafés compartilhados, das conversas antes de dormir, das férias, das brincadeiras, dos aniversários, dos pequenos momentos aparentemente comuns que, anos depois, se transformam nas maiores lembranças.


O mesmo vale para nossos relacionamentos, amizades e até para o cuidado conosco. Descansar não é preguiça. Não é desperdício de tempo. Não significa falta de ambição. Descansar é uma necessidade biológica, psicológica e emocional.


O cérebro precisa de pausas para consolidar memórias, regular emoções, recuperar a atenção e restaurar sua capacidade de resolver problemas. Quando ignoramos continuamente essa necessidade, aumentamos o risco de ansiedade, irritabilidade, dificuldades cognitivas e burnout.

Paradoxalmente, quanto mais tentamos produzir sem parar, menos qualidade entregamos.


Eu aprendi a olhar os períodos de descanso de outra maneira. Eles não representam uma interrupção da minha profissão, mas sim um investimento nela.


Voltar depois de alguns dias de pausa me lembra que cuidar das outras pessoas também exige cuidar de mim. E acredito que essa seja uma reflexão válida para qualquer profissão.


Trabalhe com dedicação. Busque crescer. Construa sua carreira. Mas não permita que ela ocupe todos os espaços da sua existência. Porque, no fim das contas, nossa profissão é apenas uma parte de quem somos.


A vida acontece também nas pausas, nas conversas sem pressa, nos almoços em família, nas caminhadas, nas leituras, nos abraços e nos momentos em que simplesmente deixamos de produzir para apenas existir.


O verdadeiro sucesso não é trabalhar cada vez mais, e sim construir uma vida da qual não sintamos necessidade de fugir.


Silvia Helena dos Santos

Psicóloga

CRP 06/80275

 
 
 

Comentários

Avaliado com 0 de 5 estrelas.
Ainda sem avaliações

Adicione uma avaliação
bottom of page