A Adolescência e a Sensação de Insuficiência
- Silvia Helena

- há 2 dias
- 2 min de leitura

Muitos adolescentes crescem com uma sensação difícil de explicar:
“tem algo em mim que não é bom o bastante.”
Essa percepção não costuma aparecer de forma clara ou organizada. Ela se manifesta em frases simples, mas carregadas de significado:
“Não sou inteligente o suficiente.”
“Não sou interessante ou bonito(a) o suficiente.”
“Não sou bom/boa o suficiente.”
Por trás dessas falas, existe algo maior: uma forma de se enxergar que foi sendo construída ao longo do tempo, muitas vezes sem que o próprio adolescente perceba. No dia a dia, isso aparece de maneiras bastante concretas: na comparação constante com os outros, no medo de errar e na necessidade de aprovação.
Na sensação de estar sempre sendo avaliado. E, em muitos casos, isso não vem do olhar externo, e sim do interno. O próprio adolescente passa a se observar com um nível de exigência alto, rígido e, frequentemente, injusto.
Do ponto de vista da Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC), esse funcionamento está muito relacionado aos chamados pensamentos automáticos (interpretações rápidas, que surgem quase sem filtro, e que acabam sendo tomadas como verdade).
São pensamentos como:
“ninguém gosta de mim”,
“vou fracassar”,
“os outros são melhores”.
O problema não é apenas o conteúdo desses pensamentos, mas a forma como eles são acreditados: sem questionamento, sem análise, sem espaço para dúvida.
Na prática clínica com adolescentes, no entanto, esse trabalho precisa ir além da explicação técnica. O adolescente, muitas vezes, não chega dizendo que tem “baixa autoestima” ou “crenças disfuncionais”.
Ele chega dizendo que se sente mal, deslocado, insuficiente, ou, às vezes, nem consegue nomear o que sente. Por isso, uma parte fundamental do processo terapêutico é a tradução.
Traduzir o pensamento para algo que faça sentido.
Traduzir a emoção para algo que possa ser reconhecido.
Traduzir a experiência interna para uma linguagem que o adolescente consiga, aos poucos, se apropriar.
A partir daí, o trabalho começa a ganhar forma.
Identificar os pensamentos que surgem, entender o que os desencadeia e questionar a rigidez dessas ideias.
Então, finalmente, construir uma forma mais realista, e mais justa, de se enxergar. Mas esse não é um processo imediato.
Então vamos lá: muitas vezes, essa sensação de “não ser suficiente” não nasce do nada. Ela é aprendida. É reforçada e é repetida ao longo do tempo. E, justamente por isso, precisa ser compreendida, não apenas corrigida.
Com o tempo, e com o cuidado certo, o adolescente começa a perceber algo importante:
talvez nunca tenha faltado tanto nele… mas sim compreensão sobre si.
E essa mudança de olhar, ainda que sutil no início,
Costuma transformar a forma como ele se posiciona no mundo, nas relações, nos desafios e, principalmente, consigo mesmo.
Silvia Helena dos Santos — Psicóloga 🦋
CRP 80275



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