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Quando o Amor já Começa com Medo

  • Foto do escritor: Silvia Helena
    Silvia Helena
  • 14 de abr.
  • 3 min de leitura



Hoje vivi uma cena simples, dessas que passam despercebidas, mas que, quando a gente escuta com atenção, dizem muito sobre o tempo em que estamos vivendo.


Eu estava no salão, fazendo meus pés, com um livro aberto no colo. Ao meu lado, uma cliente e a manicure conversavam. Ambas jovens, não tão jovens, talvez na casa dos 30 e poucos anos, falando sobre seus relacionamentos atuais e recentes.


E, em poucos minutos, algo me chamou a atenção: a concordância imediata entre elas de que “no início tudo são flores”, mas que depois “a gente já sabe”. Em seguida, uma frase que ficou ecoando em mim: “Dá até medo.”


Não era um desabafo isolado. Era uma conclusão compartilhada. Um entendimento implícito de que o amor começa bonito… mas inevitavelmente se desgasta, decepciona, frustra.


Isso me fez pensar que talvez estejamos vivendo um tempo em que as pessoas já entram em novos vínculos carregando não apenas suas histórias, mas também uma espécie de antecipação do fracasso. Como se o futuro já estivesse, de alguma forma, contaminado pelo passado.


Na prática, isso muda completamente a forma como se vive um relacionamento. Quando alguém espera que tudo vá desandar, passa a observar o outro com uma lente de ameaça. Pequenos acontecimentos ganham proporções maiores do que realmente têm. Uma mensagem que demora a ser respondida já pode ser interpretada como desinteresse. Um desencontro de comunicação pode soar como falta de cuidado. Um dia mais distante pode parecer sinal de perda de afeto. Não porque esses sinais sejam, de fato, graves, mas porque já existe uma expectativa prévia de que eles confirmem algo.


Na Terapia Cognitivo-Comportamental, nós entendemos isso como a atuação de crenças disfuncionais e de um processo chamado viés de confirmação. Ou seja: quando acreditamos em algo, tendemos a selecionar e interpretar as experiências de forma a sustentar essa crença. Se alguém parte da ideia de que “todo relacionamento começa bem e depois piora”, passa a viver cada fase do vínculo quase como quem aguarda a evidência final de que isso é verdade. E, muitas vezes, sem perceber, essa postura contribui para aquilo que mais se teme.


Sabemos que as relações não se constroem apenas com sentimentos, mas também com interpretação, tolerância, comunicação e disponibilidade emocional. E quando há pouca margem para erro, para falha humana, para diferença de ritmo, o vínculo se torna rígido demais para sustentar a realidade.


É importante dizer: relacionamentos não são, de fato, um estado permanente de encantamento. Eles passam por ajustes, por ruídos, por momentos de maior e menor proximidade. Isso não é sinal de fracasso, e sim de realidade.


O problema não está em reconhecer que o amor pode enfrentar dificuldades. O problema está em transformar essa possibilidade em uma certeza antecipada.


É importante saber que quando o medo passa a organizar a forma como alguém se relaciona, ele deixa de ser proteção… e passa a ser limitação.


O ponto mais importante é esse: nem todo começo bonito é uma ilusão. E nem toda dificuldade é um sinal de que “virou igual aos outros”.


Entre idealizar o amor e condená-lo antes da hora, existe um caminho mais saudável, que é o de viver o vínculo como ele é, com abertura para o que está acontecendo no presente, e não apenas para aquilo que já foi vivido no passado.


A pergunta que fica não é se relacionamentos podem dar errado. Eles podem. Mas sim: você está vivendo o que está acontecendo… ou está reagindo ao que teme que aconteça?



Silvia Helena dos Santos

CRP 80275

Psicóloga 🦋

 
 
 

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