Quando o Luto Precisa de Tempo e Quando Precisa de Ajuda
- Silvia Helena

- há 2 dias
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Nos últimos tempos, tenho convivido mais de perto com a morte. Perdi amigos, parentes, pets e até pacientes. E, embora saibamos racionalmente que a morte faz parte da vida, saber disso não nos prepara necessariamente para quando ela chega.
Dói perceber que alguém morreu ainda com tanta sede de vida. Com projetos, planos, propósitos, compromissos para a semana seguinte, coisas que ainda queria conhecer, fazer, viver. Mas também é doloroso acompanhar alguém que parece ir morrendo aos poucos, ainda em vida. Alguém que vai perdendo o interesse, deixando de encontrar sentido, desistindo das coisas que antes importavam. Para quem está ao redor, muitas vezes existe uma espécie de luto que começa antes mesmo da perda concreta.
E então a morte acontece. Mas existe uma coisa sobre o luto que me incomoda especialmente: a pouca tolerância que nossa sociedade parece ter com a dor de quem ficou. Você perde alguém, organiza um funeral, se despede (ou tenta se despedir) e, pouco tempo depois, espera-se que volte ao trabalho, responda mensagens, cumpra horários, tome decisões, produza e, de preferência, sorria.
Como se o funeral tivesse encerrado alguma coisa. Não encerrou. Quem está de luto não voltou igual.
Mas luto em si não é doença É importante dizer isso antes de qualquer classificação diagnóstica: sofrer depois da morte de alguém significativo é esperado. O luto pode envolver tristeza intensa, saudade, choro, raiva, culpa, dificuldade de concentração, alterações no sono e no apetite, cansaço, sensação de vazio, isolamento e uma espécie de desorganização temporária da própria vida.
Também não é necessariamente linear. A pessoa pode passar uma tarde agradável, rir genuinamente e, horas depois, ser tomada por uma onda de saudade ao encontrar uma roupa, sentir um cheiro, ouvir uma música ou perceber que está prestes a contar alguma coisa para alguém que já não está ali. Isso não significa que ela esteja “regredindo”. O luto não obedece a uma linha reta e tampouco existe uma quantidade universal de dias depois da qual alguém deveria estar bem. Por isso, uma das coisas mais importantes que podemos fazer é não transformar uma reação humana à perda em doença apenas porque ela é dolorosa ou desconfortável para quem observa.
Quando o DSM passou a reconhecer o luto prolongado
O DSM-5-TR — Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, Texto Revisado — incluiu formalmente o Transtorno do Luto Prolongado como diagnóstico. Essa inclusão não significa que sofrer muito por alguém seja um transtorno. Ao contrário: existe justamente uma preocupação em diferenciar o processo natural de luto de uma condição em que o sofrimento permanece extremamente intenso, persistente e passa a comprometer significativamente o funcionamento da pessoa. Em adultos, para que se considere esse diagnóstico, a morte precisa ter ocorrido há pelo menos 12 meses. Para crianças e adolescentes, o período é de pelo menos 6 meses. Além do tempo, é necessário que as reações sejam clinicamente significativas, causem sofrimento ou prejuízo funcional e ultrapassem aquilo que seria esperado considerando as normas culturais, sociais e religiosas daquele indivíduo. (DSM-5-TR) Portanto, tempo sozinho não faz diagnóstico.
O que caracteriza o Transtorno do Luto Prolongado?
De maneira resumida e sem substituir uma avaliação clínica, o DSM-5-TR considera central a existência persistente de uma resposta de luto marcada por saudade ou desejo intenso pela pessoa que morreu e/ou preocupação persistente com ela, presente de maneira importante. Também são observadas manifestações como dificuldade para aceitar a morte, sofrimento emocional intenso relacionado à perda, sensação de que uma parte de si também morreu, dificuldade para retomar a própria vida, entorpecimento emocional, solidão intensa e sensação de que a vida perdeu o sentido.
Para o diagnóstico, é necessário avaliar não apenas quais sintomas existem, mas sua frequência, intensidade, duração, impacto sobre a vida e contexto sociocultural.
Superar um luto não significa deixar de amar ou esquecer. O problema aparece quando a pessoa parece ficar aprisionada naquela perda de maneira persistente, com sofrimento intenso e prejuízo significativo para continuar vivendo.
E como a Terapia Cognitivo-Comportamental pode ajudar? A TCC não pretende ensinar alguém a “parar de sentir”. Muito menos convencer uma pessoa de que ela não deveria sofrer. No tratamento do luto prolongado, o objetivo é ajudá-la a elaborar a realidade da perda e, aos poucos, construir uma vida que possa novamente comportar vínculos, projetos, prazer e significado, sem exigir que a pessoa falecida seja esquecida.
Estudos mostram benefício do trabalho de exposição às memórias dolorosas da perda quando realizado dentro de um tratamento estruturado e seguro. (PubMed) Ou seja: tratar o luto não significa apagar a saudade. Significa ajudar alguém a voltar a viver apesar dela.
Antes de qualquer técnica, existe a empatia. Nem tudo que uma pessoa enlutada precisa pode ser encontrado em um manual. Existe algo muito mais básico: humanidade. Nem sempre precisamos encontrar a frase perfeita. Na verdade, diante de determinadas perdas, ela simplesmente não existe. Um “sinto muito” pode bastar. Perguntar “como você está?” e realmente estar disposto a ouvir a resposta pode bastar. Às vezes, respeitar o silêncio basta.
O que não deveria acontecer é a dor de alguém se transformar em inconveniente porque atrapalhou nossos planos, nossa rotina ou aquilo que esperávamos daquela pessoa naquele momento.
Há uma frase que circula há anos, em diferentes versões e com autoria incerta, cuja ideia sempre me toca: se a dor do outro não nos toca, talvez seja a nossa própria humanidade que precise ser questionada.
Não precisamos sentir exatamente a dor do outro. Isso seria impossível. Mas podemos reconhecê-la. Podemos compreender que aquela pessoa talvez não consiga produzir como antes, conversar como antes, divertir-se como antes ou simplesmente ser quem era antes. Porque alguma coisa mudou.
Algumas ausências não desaparecem. Nós é que, lentamente, aprendemos a construir uma vida ao redor delas.
Quem perdeu alguém não precisa que o mundo pare para sempre. Mas talvez precise que, por alguns instantes, alguém tenha a delicadeza de parar ao seu lado.
Silvia Helena dos Santos
Psicóloga — CRP 06/80275 🦋



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