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Todo Jovem Precisa de um Lugar para Sonhar

  • Foto do escritor: Silvia Helena
    Silvia Helena
  • há 9 horas
  • 3 min de leitura

Existe um discurso bastante recorrente sobre os adolescentes de hoje: “não querem nada”, “não se interessam por nada”, “só querem saber de celular”, “não pensam no futuro”.


Mas será que a falta de motivação pode ser explicada apenas como uma característica desta geração?


Do ponto de vista psicológico, a questão é muito mais complexa.


A adolescência é uma etapa marcada por profundas transformações físicas, cognitivas, emocionais e sociais. É um período em que o jovem começa a se afastar, gradativamente, de uma identidade construída predominantemente a partir da família e passa a buscar respostas próprias para perguntas fundamentais: Quem sou eu? Do que gosto? No que sou bom? A que grupo pertenço? Que lugar quero ocupar no mundo?


E é nesse processo que o ambiente pode fazer uma enorme diferença, pois motivação não nasce de cobranças. Dizer repetidamente a um adolescente que ele precisa estudar, pensar no futuro ou “ser alguém na vida” não necessariamente produz motivação. Em alguns casos, pode produzir exatamente o contrário: ansiedade, sensação de inadequação, medo de fracassar ou simplesmente resistência.


A motivação tende a crescer quando algumas necessidades psicológicas importantes encontram espaço: autonomia, competência e pertencimento.


O adolescente precisa começar a perceber que possui alguma possibilidade de escolha sobre a própria vida; precisa experimentar situações nas quais reconheça suas capacidades e perceba que consegue aprender e evoluir; e precisa sentir que pertence a algum lugar, que é visto, valorizado e reconhecido.


É muito diferente estudar apenas porque alguém exige uma boa nota e estudar porque se descobriu interesse por determinado assunto, porque existe um projeto a ser desenvolvido ou porque aquilo começa a fazer parte de um sonho.


Além disso, o adolescente precisa experimentar para descobrir quem é. Às vezes esperamos que um jovem de 13, 14 ou 15 anos saiba o que quer fazer da vida quando ele ainda teve poucas oportunidades de experimentar o mundo.


Interesses também são construídos. Conhecer profissões, participar de projetos, visitar escolas e universidades, praticar esportes, ter contato com arte, ciência, tecnologia, literatura, música, trabalho voluntário e diferentes grupos sociais amplia o repertório a partir do qual o adolescente poderá fazer escolhas. Por isso, mais importante do que exigir que ele já tenha um grande projeto de vida pode ser ajudá-lo a encontrar experiências capazes de despertar curiosidade.


Um interesse pode se transformar em habilidade. Uma habilidade reconhecida pode fortalecer a percepção de competência. E perceber-se competente pode aumentar a disposição para enfrentar novos desafios. É um ciclo que se retroalimenta.


Pertencer também motiva. Na adolescência, o grupo ganha enorme importância. Ser aceito, encontrar pessoas com interesses semelhantes e sentir-se parte de alguma coisa pode exercer forte influência sobre comportamentos e escolhas. Por isso, ambientes nos quais estudar, criar, pesquisar e desenvolver projetos são valorizados podem favorecer também o envolvimento do adolescente com essas atividades. Quando ele encontra outros jovens entusiasmados com aquilo que fazem, o esforço deixa de significar apenas obrigação e pode passar a representar também identidade e pertencimento.


É a diferença entre pensar “estou fazendo isso porque meus pais querem” e começar a pensar: “isso também tem a ver comigo”.


O protagonismo muda a relação com o futuro. Outro elemento fundamental é permitir que o adolescente seja participante da própria trajetória.

Naturalmente, ele ainda precisa de orientação, limites e presença adulta. Autonomia na adolescência não significa ausência de direção. Mas existe uma diferença importante entre conduzir e controlar. Pais e educadores podem apresentar possibilidades, estimular, ajudar a organizar metas, conversar sobre consequências e oferecer suporte. Ao mesmo tempo, é importante permitir que o jovem faça escolhas, experimente, erre, mude de ideia e descubra seus próprios caminhos. Quando tudo é decidido pelo adulto, o adolescente pode até cumprir tarefas, mas dificilmente desenvolverá verdadeira autoria sobre aquilo que está construindo.


Talvez não falte uma geração com sonhos. É importante também ter cuidado com generalizações pessimistas sobre os jovens. Há adolescentes desmotivados, assim como há adolescentes profundamente curiosos, criativos, dedicados e cheios de projetos. Muitas vezes, inclusive, características diferentes aparecem no mesmo jovem dependendo do contexto.


Um adolescente aparentemente apático em determinado ambiente pode se transformar quando encontra algo que desperta interesse, pessoas com quem se identifica ou um espaço em que finalmente percebe alguma competência.

Por isso, talvez uma pergunta mais interessante do que “por que os adolescentes de hoje não querem nada?” seja: Que experiências estamos oferecendo para que eles descubram o que podem querer?


Não podemos escolher os sonhos de um adolescente. Mas podemos apresentar mundos. Podemos ampliar horizontes, oferecer oportunidades, reconhecer esforços, incentivar curiosidades e ajudá-lo a suportar as frustrações inevitáveis de qualquer caminho.


E, algumas vezes, tudo o que um jovem precisa para começar a olhar para o futuro com outros olhos é encontrar um lugar, concreto ou simbólico, em que consiga pensar: “Talvez exista alguma coisa aqui que também possa ser minha.”


É assim que muitos sonhos começam.


Silvia Helena dos Santos

Psicóloga 🦋

CRP 80275

 
 
 

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