Síndrome do Ninho Vazio
- Silvia Helena

- há 2 dias
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Criar um filho é acompanhar, desde muito cedo, um movimento aparentemente contraditório: fazemos de tudo para construir um vínculo seguro e, ao mesmo tempo, esperamos que essa segurança permita que ele, um dia, caminhe sem nós.
Só que essa separação não começa quando um filho arruma as malas e sai de casa. Ela começa muito antes.
Um dos primeiros momentos em que os pais percebem isso de maneira mais dolorosa é na adolescência. A criança que procurava colo, contava tudo, queria companhia e recebia naturalmente as demonstrações de cuidado começa a pedir privacidade. Perguntas antes banais podem ser interpretadas como invasão. Conselhos passam a incomodar. O carinho pode ser recusado. Surgem respostas ríspidas, impaciência e uma necessidade crescente de estabelecer distância.
Para quem está do outro lado desse processo, é fácil interpretar essas mudanças como rejeição. Mas a Psicologia do Desenvolvimento oferece outra possibilidade de compreensão.
Adolescência e individuação
Uma das grandes tarefas da adolescência é a construção da identidade. Para descobrir quem é, o adolescente precisa progressivamente diferenciar aquilo que pensa, deseja e valoriza do que recebeu de sua família. Esse processo é chamado de individuação. Isso envolve questionar os pais, testar limites, reivindicar privacidade, aumentar a importância dos pares e experimentar novas formas de pensar, vestir, falar, sentir e se posicionar no mundo.
O adolescente precisa descobrir onde seus pais terminam e onde ele começa. Por isso, alguma oposição faz parte do desenvolvimento. Isso não significa que toda hostilidade deva ser aceita ou que limites deixem de existir. A parentalidade continua envolvendo orientação, responsabilidade e respeito mútuo.
Mas compreender o processo pode ajudar os pais a não interpretar toda reação difícil como falta de amor.
Existe, inclusive, um paradoxo importante nos vínculos seguros: muitas vezes, mostramos nossas emoções mais desorganizadas justamente diante das pessoas em relação às quais acreditamos que o vínculo sobreviverá. O adolescente pode controlar sua irritação na escola, preocupar-se com a avaliação dos amigos e, ao chegar em casa, reagir de maneira muito mais intensa. Isso se chama viés da parentalidade. Em alguns momentos, a casa e os vínculos mais seguros tornam-se também o lugar onde ele experimenta oposição, frustração e autonomia.
Amar sem invadir
Uma das mudanças mais difíceis da parentalidade é perceber que aquilo que significava cuidado durante a infância pode precisar assumir outra forma na adolescência.
Cuidar de uma criança pequena frequentemente significa aproximar-se. Cuidar de um adolescente, algumas vezes, significa saber esperar. É continuar disponível sem exigir confidências. É perguntar sem transformar cada silêncio em interrogatório. É respeitar uma porta fechada sem desaparecer do outro lado dela. E é também estabelecer limites quando necessário, porque compreender não significa permitir desrespeito.
A relação precisa encontrar uma nova distância: suficientemente próxima para oferecer segurança e suficientemente ampla para permitir autonomia.
E, pouco a pouco, os pais começam a viver pequenos lutos. A criança continua ali, mas algumas versões dela já não existem mais. O colo muda. As conversas mudam. Os interesses mudam. Os amigos ocupam mais espaço. O mundo fora de casa começa a competir com aquele universo que durante tantos anos esteve concentrado na família.
É assim que, muito antes de o ninho ficar fisicamente vazio, ele começa simbolicamente a se transformar.
Criamos filhos para que não precisem de nós da mesma maneira
Donald Winnicott trouxe à Psicanálise um conceito particularmente bonito para pensarmos a parentalidade: o da “mãe suficientemente boa”. Não se trata da mãe perfeita, até porque ela não existe. Trata-se de uma figura cuidadora capaz de oferecer sustentação e responder intensamente às necessidades do bebê no início da vida, mas que, gradualmente, permite pequenas experiências de frustração compatíveis com sua capacidade de suportá-las.
Em outras palavras, cuidar bem também significa, progressivamente, permitir que o filho precise um pouco menos daquele cuidado. É doloroso, mas existe uma enorme generosidade psíquica nisso.
Durante anos, pais e mães ensinam seus filhos a comer sozinhos, dormir sozinhos, escolher, resolver problemas, atravessar frustrações, fazer amigos, tomar decisões e construir uma vida própria. Desejamos que sejam independentes. E então eles se tornam.
É nesse momento que surge outro paradoxo da parentalidade: aquilo que pode representar o sucesso de uma tarefa também pode provocar uma profunda sensação de perda.
Quando o ninho fica vazio
A chamada síndrome do ninho vazio descreve um conjunto de sentimentos que alguns pais experimentam quando os filhos conquistam maior independência ou deixam a casa familiar.
Podem aparecer tristeza, solidão, sensação de inutilidade, perda de propósito, dificuldade para reorganizar a rotina e uma pergunta que nem sempre é formulada claramente: “Se durante tantos anos grande parte da minha vida foi cuidar de você, quem sou eu agora que você já não precisa de mim da mesma maneira?”
Por isso, o ninho vazio não diz respeito apenas à ausência física de um filho. Ele também pode representar uma transição de identidade. A pessoa continua sendo mãe ou pai. O vínculo permanece. Mas aquela função precisa ser exercida de outra maneira.
É necessário construir uma relação entre adultos, reencontrar projetos individuais, olhar novamente para a conjugalidade quando ela existe, recuperar interesses e descobrir fontes de significado que talvez tenham ficado em segundo plano durante os anos mais intensos da criação dos filhos.
Não se trata de substituir o filho. Trata-se de permitir que a própria vida também continue crescendo.
Existe uma frase repetida tantas vezes que quase perdeu sua força: “criamos os filhos para o mundo”. Na teoria, parece simples. Na prática, criar alguém para o mundo significa passar anos construindo um vínculo suficientemente seguro para que aquela pessoa tenha coragem de se afastar dele. Esse é um dos trabalhos mais difíceis do amor parental.
Na adolescência, suportar a porta que começa a se fechar sem acreditar imediatamente que ela significa rejeição. Mais tarde, suportar a porta de casa se abrindo para o mundo. E continuar sendo porto sem transformar o amor em âncora.
Os filhos não deixam de precisar dos pais. Eles apenas passam a precisar deles de outras maneiras. E uma das maiores conquistas da parentalidade é perceber que aquele filho que um dia precisava segurar nossa mão para atravessar a rua agora consegue encontrar sozinho seus próprios caminhos.
Existe orgulho nisso, mas também pode existir saudade. E as duas coisas cabem no mesmo amor.
Silvia Helena dos Santos
Psicóloga
CRP 06/80275



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