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Tique e Tourette - Muito além dos Estereótipos

  • Foto do escritor: Silvia Helena
    Silvia Helena
  • há 5 dias
  • 3 min de leitura

Quando ouvimos falar em tiques ou Transtorno de Tourette, muitas vezes imaginamos cenas vistas em filmes, séries ou vídeos da internet: pessoas fazendo movimentos exagerados ou falando palavrões involuntariamente. Mas a realidade é muito mais ampla, e muito menos caricata, do que a maioria das pessoas imagina.


Conhecer melhor os tiques e o Tourette é um passo importante para reduzir preconceitos e aumentar a compreensão sobre quem convive com essas condições.


O que são tiques?

Tiques são movimentos ou sons rápidos, repetitivos e involuntários. Eles podem surgir de forma repentina e, embora algumas pessoas consigam suprimi-los temporariamente, isso costuma gerar desconforto e um aumento da tensão interna.

Os tiques podem ser classificados em:

  1. Tiques motores, que são movimentos corporais involuntários, como:

* piscar os olhos repetidamente;

* movimentar a cabeça;

* encolher os ombros;

* fazer caretas;

* tocar objetos ou partes do corpo repetidamente.

  1. Tiques vocais, que envolvem sons produzidos involuntariamente, como:

* pigarrear;

* fungar;

* tossir sem motivo aparente;

* emitir sons ou palavras.


Os tiques costumam variar ao longo do tempo. Alguns desaparecem, outros surgem e a intensidade pode mudar conforme diferentes situações.


Toda criança com tique tem Tourette?

Não. Esse é um dos equívocos mais comuns. Muitas crianças apresentam tiques transitórios durante o desenvolvimento, especialmente entre os 5 e os 10 anos de idade. Em muitos casos, esses tiques desaparecem espontaneamente após alguns meses. Por isso, a presença de um tique isolado não significa necessariamente que exista um transtorno.


O que é o Transtorno de Tourette?

É um transtorno do neurodesenvolvimento caracterizado pela presença de múltiplos tiques motores e pelo menos um tique vocal persistindo por mais de um ano.

Os sintomas geralmente começam na infância e podem variar bastante de uma pessoa para outra. Algumas apresentam manifestações leves, enquanto outras podem experimentar impactos mais significativos em sua rotina.

É importante lembrar que a Tourette não está relacionada à inteligência, ao caráter ou à capacidade da pessoa. Crianças, adolescentes e adultos com Tourette podem estudar, trabalhar, construir relacionamentos e desenvolver suas potencialidades como qualquer outra pessoa.


Os tiques pioram em situações emocionais?

Sim. Muitas pessoas percebem aumento dos tiques em momentos de:

* estresse;

* ansiedade;

* cansaço;

* excitação;

* mudanças importantes na rotina.

Isso não significa que os tiques sejam “emocionais” ou “psicológicos” no sentido de serem inventados ou produzidos voluntariamente. Significa apenas que fatores emocionais podem influenciar sua intensidade.


Tourette é falar palavrões?

Não. Provavelmente esse é o mito mais conhecido sobre o transtorno. A emissão involuntária de palavrões, chamada coprolalia, pode ocorrer em alguns casos, mas está presente apenas em uma minoria das pessoas com Transtorno de Tourette. Ou seja: a maioria das pessoas com Tourette nunca apresentará esse sintoma. O problema é que justamente os casos mais incomuns costumam receber maior atenção da mídia, criando uma visão distorcida da condição.


Existe tratamento?

Sim. Nem toda pessoa com tiques ou Tourette precisará de tratamento medicamentoso. A necessidade de intervenção depende da intensidade dos sintomas e do impacto que eles causam na vida da pessoa.

O acompanhamento pode envolver:

* neurologista;

* psiquiatra;

* psicólogo;

* equipe multidisciplinar, quando necessário.

Abordagens comportamentais específicas podem ajudar muitas pessoas a lidar melhor com os tiques e reduzir o sofrimento associado a eles. Além disso, orientar familiares, professores e pessoas próximas costuma ser uma parte fundamental do processo.


O papel da informação

Talvez o maior desafio enfrentado por quem convive com tiques ou Tourette não sejam apenas os sintomas, mas o julgamento. Olhares curiosos, comentários inadequados e interpretações equivocadas podem gerar vergonha, isolamento e sofrimento emocional. Por isso, informação é tão importante. Antes de concluir que alguém está fazendo um movimento “estranho” ou um som “de propósito”, vale lembrar que existem condições neurológicas e do neurodesenvolvimento que explicam esses comportamentos.


Toda pessoa merece ser vista para além de seus sintomas. Não julgue o que você não conhece.


Silvia Helena dos Santos

Psicóloga | CRP 06/80275


 
 
 

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