A Dor que se Esconde no Impulso
- Silvia Helena

- 18 de nov. de 2025
- 3 min de leitura

Nem toda compulsão aparece como algo “grave” à primeira vista. Às vezes, está ali, disfarçada de hábito cotidiano: comer sem fome, beber para relaxar, trabalhar além do razoável, gastar por impulso, roer as unhas, comprar o que não precisa, se afogar nas telas para não sentir nada. A compulsão, de forma geral, não é sobre o objeto em si. Não é sobre comida, compras, álcool, sexo, jogos, trabalho ou redes sociais. É sobre o que aquele comportamento entrega emocionalmente: alívio rápido, desligamento, conforto momentâneo ou a sensação de que algo ficou menos doloroso, mesmo que só por alguns minutos.
Compulsão é um jeito de regular emoções difíceis
Do ponto de vista psicológico, a compulsão costuma surgir como resposta a sentimentos que a pessoa não sabe nomear, acolher ou manejar: ansiedade, vazio, solidão, tédio, medo, frustração, autocobrança.
Alguns sentimentos parecem “grandes demais”, intensos demais ou incômodos demais para serem enfrentados diretamente. Então a mente procura atalhos.
E a compulsão se torna exatamente isso: um atalho emocional. Rápido, eficiente e caro.
O ciclo compulsivo (que se repete quase sempre assim)
Tensão emocional - Uma emoção desconfortável surge e aumenta.
Impulso - O comportamento compulsivo aparece como solução imediata.
Alívio momentâneo - O ato gera relaxamento rápido e liberação de dopamina.
Culpa, vergonha e arrependimento - Depois do alívio, surgem autocobrança e sensação de descontrole. Esse mal-estar alimenta novamente a tensão e o ciclo recomeça.
Não é teimosia. Não é “falta de força de vontade”. É um mecanismo de sobrevivência emocional que ficou automático demais.
A DBT (Terapia Comportamental Dialética), desenvolvida por Marsha Linehan, oferece uma compreensão profunda sobre a compulsão.
Segundo Linehan, algumas pessoas crescem em ambientes onde:
emoções não foram validadas,
não houve apoio consistente,
faltaram modelos de regulação emocional.
Isso gera vulnerabilidade emocional: a pessoa sente muito, rápido e intensamente — e não tem recursos internos suficientes para lidar com isso.
A compulsão, então, surge como uma estratégia automática de sobrevivência:
diminui o incômodo,
dá alívio momentâneo,
cria a sensação de “respiro”.
Na perspectiva da DBT, isso não é fraqueza. É a melhor solução que a pessoa encontrou quando não havia outra forma de suportar sua própria intensidade emocional.
ESTRATÉGIAS PARA AJUDAR A ROMPER O CICLO DA COMPULSÃO
1. Mindfulness
Aprender a observar a emoção sem se deixar arrastar por ela.
2. Regulação Emocional
Compreender vulnerabilidades, identificar sentimentos e reduzir intensidade emocional sem recorrer ao excesso.
3. Tolerância ao Desconforto
Desenvolver a capacidade de atravessar momentos difíceis sem agir impulsivamente.
4. Efetividade Interpessoal
Melhorar relações, reduzir conflitos externos e fortalecer limites.
Essas habilidades constroem um novo caminho: o de lidar com a emoção, ao invés de fugir dela.
Por que algumas pessoas são mais vulneráveis?
Além da desregulação emocional, outros fatores influenciam:
Histórico de carências afetivas
Autoestima fragilizada
Traumas
Perfeccionismo
Ambientes familiares desorganizados
Em todos esses cenários, a compulsão aparece como uma tentativa de aliviar uma dor que não teve espaço para existir.
Sinais de alerta
A compulsão pode estar presente quando a pessoa:
sente perda de controle,
usa o comportamento para lidar com emoções,
repete mesmo sabendo que faz mal,
sente culpa depois,
esconde, minimiza ou tenta parar sem conseguir.
O que ajuda a transformar esse padrão?
1. Nomear emoções - Reconhecer o que se sente diminui a necessidade de fugir.
2. Criar pausas- Um pequeno intervalo entre impulso e ação já transforma o ciclo.
3. Usar habilidades da DBT - Mindfulness, respiração, tolerância ao desconforto.
4. Trabalhar crenças internas - Entender a lógica emocional que sustenta a compulsão.
5. Construir autocuidado real - Rotina, descanso, vínculos, presença.
6. Psicoterapia - Porque a compulsão é sintoma, não a causa. A transformação acontece quando a dor finalmente encontra espaço para ser compreendida.
A compulsão não é o problema central; ela é o sinal. Um pedido silencioso de ajuda, uma tentativa de aliviar dores que ainda não ganharam nome, espaço ou cuidado.
Quando olhamos para além do comportamento e passamos a escutar a história emocional que ele protege, algo importante acontece: surge a possibilidade de escolha. E escolha é liberdade.
Romper ciclos compulsivos não é sobre “parar” de fazer algo, mas sobre aprender novas maneiras de existir dentro de si, com mais presença, mais regulação e mais gentileza.
A terapia oferece exatamente esse caminho: o de construir recursos internos que tornam o alívio rápido menos necessário, e a vida mais tolerável, mais honesta e mais sua.
A compulsão grita porque existe uma dor que não pôde falar. Quando essa dor encontra acolhimento, o comportamento deixa de ser a única estratégia possível.
E aí, finalmente, a pessoa deixa de apenas sobreviver, e começa a viver.
Silvia Helena dos Santos — Psicóloga
CRP 06/80275 🦋



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