Quando o Medo do Julgamento Limita a Vida
- Silvia Helena

- 8 de jan.
- 2 min de leitura

Muitas pessoas obesas não deixam de sair, de se expor ou de conviver porque alguém, de fato, as rejeitou. Elas se afastam antes. Antecipam o julgamento. Criam, internamente, um tribunal que avalia cada roupa, cada olhar, cada possível comentário.
Na clínica, é comum ouvir frases como:
“Vão reparar no meu corpo.”
“Essa roupa não é pra mim.”
“Ninguém vai querer conversar comigo.”
“Se comentarem algo, eu não vou aguentar.”
Aos poucos, a vida social vai sendo evitada. O corpo passa a ser visto como um erro a ser escondido. A roupa, como um risco. O encontro, como um teste. E a pessoa começa a acreditar que todo o seu valor está reduzido à forma física.
Do ponto de vista da Terapia Cognitivo Comportamental, esse movimento é sustentado por crenças centrais - ideias profundas e rígidas sobre si mesmo, como:
“Eu não sou suficiente.”
“Meu valor depende da minha aparência.”
“Se me criticarem, isso prova que eu não valho nada.”
Essas crenças alimentam pensamentos automáticos negativos, que surgem de forma rápida e convincente, sem que a pessoa perceba que são interpretações, e não fatos.
Na TCC, aprendemos que não é o comentário em si que machuca, mas o significado que ele ganha quando encontra uma crença já fragilizada.
É por isso que a opinião dos outros parece pesar tanto. Não porque ela seja, necessariamente, verdadeira, mas porque encontra um terreno interno já tomado pela dúvida sobre o próprio valor.
Quando a convicção interna é frágil, qualquer olhar vira sentença. Quando essa convicção começa a ser construída, o comentário maldoso perde o lugar de verdade absoluta e passa a ser apenas o que é: a limitação, a projeção ou a crueldade de quem fala.
Um dos objetivos centrais da TCC, proposta por Albert Ellis, é justamente ajudar a pessoa a identificar, questionar e flexibilizar essas crenças, substituindo padrões rígidos de autoavaliação por pensamentos mais realistas, compassivos e funcionais.
Porque o valor de uma pessoa nunca coube, e nunca vai caber, em um número, em um espelho ou em um padrão estético. E quando alguém acredita que precisa “consertar o corpo” para merecer existir em público, o sofrimento maior não está no peso, e sim na solidão, no isolamento e na vida que deixa de ser vivida.
Reconstruir a relação consigo mesmo é um processo. E, muitas vezes, é esse trabalho interno que permite que o mundo externo deixe de parecer tão ameaçador.
Silvia Helena dos Santos
Psicóloga • CRP 06/80275 🦋



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