A Vida do Outro como Régua: por que nos comparamos tanto?


Você já olhou para alguém e pensou, quase instantaneamente: “Ela está muito melhor do que eu.”, “Na minha idade, ele já tinha conquistado muito mais.”, “Os filhos dela parecem tão mais tranquilos.”, “Meu irmão sempre foi o mais inteligente.”, “Por que meu relacionamento não é assim como o deles?”.
Às vezes, nem percebemos que estamos fazendo isso. A comparação simplesmente acontece.
O problema não está necessariamente em observar o outro. Comparar faz parte da maneira como o ser humano organiza informações, avalia situações e tenta compreender a si mesmo. A dificuldade começa quando a vida do outro se transforma na régua com a qual medimos o nosso próprio valor.
Agora vamos entender isso, do ponto de vista da Psicologia. Na Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC), entendemos que não são apenas os acontecimentos que determinam como nos sentimos, mas também a interpretação que fazemos deles.
Imagine uma mulher que abre uma rede social e vê uma conhecida viajando com a família. Quase imediatamente surge: “Todo mundo consegue aproveitar a vida, menos eu.”. Ela provavelmente não parou para construir esse raciocínio. Ele simplesmente apareceu. É o que chamamos de pensamento automático. A partir dele podem surgir tristeza, frustração, inveja, ansiedade, culpa ou uma sensação de fracasso.E perceba a distorção: ela viu uma fotografia de alguns segundos da vida de uma pessoa e, a partir dela, chegou a uma conclusão sobre a vida inteira daquela pessoa, e sobre a própria.
É como comparar o nosso bastidor com a vitrine do outro.
Nesse processo podem aparecer várias distorções cognitivas: generalização (“todo mundo está melhor do que eu”), filtro mental (perceber apenas aquilo que confirma nossa inferioridade), pensamento dicotômico (“ou sou bem-sucedido ou fracassei”), desqualificação do positivo (“o que conquistei não foi grande coisa”) e os famosos “deveria”: “Eu já deveria ter conseguido isso”. E quanto mais acreditamos nesses pensamentos, mais verdadeiros eles parecem.
Comparação ascendente e descendente
Nem toda comparação acontece da mesma maneira. Na chamada comparação ascendente, olhamos para alguém que percebemos como estando “acima” de nós em determinada característica: mais bonito, mais bem-sucedido, mais rico, mais inteligente, mais realizado ou mais feliz. Ela pode servir como inspiração. O problema aparece quando a conclusão deixa de ser “eu gostaria de conquistar algo parecido” e passa a ser “se ele conseguiu e eu não, há algo errado comigo”.
Existe também a comparação descendente, quando nos comparamos com alguém que julgamos estar em uma situação pior. Ela pode produzir alívio momentâneo (“pelo menos eu não estou naquela situação”), mas também pode alimentar uma autoestima excessivamente dependente de estar em vantagem em relação aos outros. Em ambos os casos, existe um risco: nosso valor passa a depender da posição que acreditamos ocupar em uma espécie de ranking imaginário.
Quando os pais comparam os filhos
Talvez algumas das comparações mais marcantes sejam justamente aquelas que não fazemos conosco, mas que alguém fez por nós.
“Por que você não estuda como seu irmão?”
“Sua irmã nunca me deu esse trabalho.”
“Olha como seu primo é educado.”
Muitas vezes essas frases são ditas como tentativa de motivação. Mas a mensagem recebida pela criança ou pelo adolescente pode ser muito diferente: “Do jeito que sou, não sou suficiente.” Além de favorecer rivalidades, comparações frequentes entre irmãos podem contribuir para a construção de crenças sobre inadequação, competência e valor pessoal.
Orientar comportamentos é diferente de comparar pessoas.
Mães também se comparam, e muito! Há ainda uma comparação particularmente cruel: aquela que acontece na maternidade. Uma mãe observa outra e pensa: “Ela dá conta de tudo.”, “O filho dela come melhor.”, “Ela parece muito mais paciente.”, “O filho dela já faz isso sozinho.”, etc.
Só que novamente estamos diante de informações incompletas. Não conhecemos integralmente a rotina daquela família, a rede de apoio disponível, as características daquela criança, as condições financeiras, as dificuldades enfrentadas dentro de casa, nem aquilo que não aparece nas fotografias.
Contextos diferentes não podem ser avaliados pela mesma régua.
No trabalho, a carreira também vira competição Um colega é promovido. Outro ganha mais. Alguém da mesma idade abriu uma empresa, terminou um doutorado ou parece ter construído uma carreira brilhante. E aparece o pensamento: “Estou atrasado.”
Mas atrasado em relação a quê? Quando transformamos a vida em uma corrida, precisamos imaginar uma linha de largada e uma linha de chegada iguais para todos. E elas não existem. Pessoas começaram de lugares diferentes, tiveram oportunidades diferentes, enfrentaram dificuldades diferentes e fizeram escolhas diferentes. A trajetória de outra pessoa pode fornecer informação ou inspiração. Ela não precisa funcionar como sentença sobre a nossa.
E até o amor entra na comparação: “Por que você não é romântico como o marido dela?”, “Eles viajam muito mais do que nós.”, “Olha como aquele casal parece feliz.”. Comparações dentro de um relacionamento são especialmente delicadas porque podem transformar uma necessidade legítima em ataque.
Existe uma diferença enorme entre dizer:
“Gostaria que tivéssemos mais momentos juntos.”
e:
“Você nunca faz isso. O marido da fulana faz.”
Na primeira frase, comunico uma necessidade. Na segunda, além da necessidade, introduzo uma terceira pessoa como parâmetro para avaliar meu parceiro.
Relacionamentos saudáveis não precisam parecer com outros relacionamentos. Precisam fazer sentido para as pessoas que estão dentro deles.
O que fazer quando perceber que está se comparando?
Na TCC, não tentamos simplesmente ordenar: “Pare de se comparar”. Pensamentos automáticos não desaparecem porque alguém mandou. Primeiro, precisamos percebê-los. Quando notar uma comparação que provocou sofrimento, experimente perguntar:
O que exatamente pensei?
“Ela é melhor do que eu.”
Que emoção apareceu?
Tristeza? Inveja? Vergonha? Ansiedade?
Qual conclusão estou tirando dessa comparação?
“Se ela conseguiu e eu não, significa que fracassei.”
E então vem uma pergunta fundamental:
Essa conclusão é necessariamente verdadeira? (Nosso famoso Debate Socrático, técnica de ouro da TCC)
Talvez a formulação mais realista seja:
“Ela conquistou algo que eu também gostaria de conquistar. Isso não transforma a conquista dela em prova da minha incapacidade.”. Essa mudança parece pequena, mas psicologicamente é enorme. E causa uma reestruturação cognitiva tremenda!
O objetivo não é eliminar toda comparação, e sim não permitir que ela determine o nosso valor.
Você pode admirar alguém sem se diminuir. Pode desejar algo que o outro possui sem transformar isso em fracasso pessoal. Pode reconhecer qualidades no outro sem apagar as suas. E, principalmente, pode lembrar que duas vidas diferentes não precisam chegar ao mesmo lugar, no mesmo momento, para que ambas tenham valor.
Silvia Helena dos Santos
Psicóloga
CRP 06/80275



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