Por que Mentimos? Da Pequena Mentira Cotidiana à Mentira que vira um Padrão


Mentir faz parte do comportamento humano. Essa afirmação pode soar desconfortável, mas basta pensar um pouco para perceber quantas pequenas alterações da verdade aparecem no cotidiano: “Estou chegando”, quando ainda nem saímos de casa; “Está tudo bem”, quando não está; “Adorei”, quando não gostamos tanto assim.
Mas por que fazemos isso? Nem toda mentira tem a mesma função As pessoas podem mentir por razões muito diferentes. Para evitar uma bronca, fugir de um conflito, não decepcionar alguém, preservar a própria imagem, obter alguma vantagem, esconder algo de que sentem vergonha ou até na tentativa de proteger os sentimentos de outra pessoa.
Existem também as chamadas “mentiras sociais”: pequenas distorções da verdade que costumam aparecer nas relações sociais com a intenção de evitar constrangimentos ou conflitos. Isso não significa que sejam necessariamente boas ou ruins. O contexto, a intenção, a frequência e, principalmente, as consequências precisam ser considerados. Afinal, uma mentira aparentemente pequena pode ter um impacto enorme quando atinge algo fundamental em uma relação: a confiança.
O que acontece antes de uma mentira?
Na Terapia Cognitivo-Comportamental, interessa compreender não apenas o comportamento, mas também os pensamentos, emoções e crenças envolvidos nele. Antes de mentir, alguém pode pensar:
“Se eu contar a verdade, vão ficar com raiva de mim.”
“Se souberem o que realmente aconteceu, vão me rejeitar.”
“Não posso decepcionar essa pessoa.”
“Preciso parecer melhor do que realmente sou.”
“Não vou suportar as consequências.”
Nesse contexto, a mentira pode funcionar como uma forma de esquiva. A pessoa sente medo, culpa, vergonha ou ansiedade, mente e experimenta um alívio imediato: escapou daquela conversa, daquela consequência ou daquele julgamento. O cérebro aprende rapidamente com aquilo que produz alívio. Assim, se mentir diminui um desconforto no curto prazo, aumenta a possibilidade de esse comportamento ser utilizado novamente diante de situações semelhantes. O problema é que aquilo que alivia hoje pode cobrar uma conta amanhã.
Existe mentirinha e mentirona?
Certamente existem mentiras com consequências muito diferentes. Mentir sobre gostar de um presente não é equivalente a esconder uma traição, inventar uma doença, fraudar alguém ou sustentar durante anos uma história que nunca aconteceu. Mas talvez não seja suficiente classificar as mentiras apenas como “pequenas” ou “grandes”. Também precisamos perguntar: Qual foi a intenção? Com que frequência acontece? Quem é afetado? Qual é o prejuízo causado? A pessoa consegue assumir a verdade quando confrontada? Precisa criar novas mentiras para sustentar as anteriores?
Uma mentira aparentemente pequena, quando repetida continuamente, pode corroer uma relação. A gravidade de uma mentira, portanto, nem sempre está apenas no tamanho da história contada, mas naquilo que ela é capaz de destruir: confiança, intimidade, credibilidade e segurança.
Quando mentir vira um padrão?
É importante fazer uma distinção: mentir frequentemente não constitui, por si só, um transtorno mental. Popularmente ouvimos expressões como “mentiroso compulsivo” ou até “vício em mentir”. Na clínica, porém, é preciso muito mais cuidado.
A pessoa pode construir narrativas nas quais aparece, por exemplo, como vítima de acontecimentos improváveis, alguém excepcionalmente importante ou protagonista de experiências que nunca ocorreram. Entretanto, a chamada mentira patológica não aparece como um diagnóstico independente no DSM-5-TR. Isso é importante porque não devemos transformar um comportamento isolado em diagnóstico.
A mentira pode aparecer em transtornos psicológicos?
Sim. O comportamento de enganar ou falsificar informações pode estar presente em alguns quadros, mas por razões bastante diferentes.
No Transtorno da Personalidade Antissocial, por exemplo, a falsidade pode fazer parte do padrão comportamental, incluindo mentiras repetidas, uso de identidades falsas ou manipulação de outras pessoas para benefício ou prazer pessoal. Mas esse transtorno envolve diversos outros critérios e uma história comportamental específica. Não se diagnostica alguém como antissocial simplesmente porque mente muito.
No Transtorno Factício, a pessoa pode falsificar, exagerar ou até provocar sinais e sintomas físicos ou psicológicos e se apresentar aos outros como doente ou incapacitada, mesmo na ausência de uma recompensa externa evidente que explique o comportamento.
Há ainda situações em que mentiras podem aparecer associadas a dificuldades de autoestima, necessidade intensa de aprovação, medo de rejeição, impulsividade ou padrões disfuncionais de relacionamento. Nesses casos, é necessário compreender a função daquele comportamento dentro da história daquela pessoa, em vez de simplesmente procurar um rótulo.
E quando a pessoa começa a acreditar na própria mentira?
Essa é uma questão especialmente interessante. Repetir uma história muitas vezes pode modificar a maneira como alguns detalhes são lembrados, porque a memória humana não funciona como uma gravação perfeita dos acontecimentos. Mas isso não significa que toda pessoa que sustenta uma mentira “passou a acreditar nela”.
Também é fundamental diferenciar mentira de delírio. Na mentira, existe, em princípio, uma falsificação da realidade. No delírio, a pessoa está convencida daquela crença e não está simplesmente inventando uma história para enganar alguém. São fenômenos psicológicos diferentes e exigem avaliações diferentes.
Como a TCC pode trabalhar a mentira recorrente?
O objetivo não é simplesmente dizer à pessoa: “pare de mentir”. É preciso descobrir para que aquela mentira está servindo. O trabalho pode envolver a identificação das situações que desencadeiam o comportamento, dos pensamentos automáticos que aparecem antes da mentira e das emoções que a pessoa está tentando evitar.
Também pode ser necessário trabalhar crenças mais profundas, como: “Se eu errar, deixarei de ser amado.”, “Preciso impressionar para ter valor.”, “Não posso mostrar minhas fragilidades.”, “Não consigo enfrentar conflitos.”
A terapia pode ajudar a desenvolver tolerância ao desconforto, assertividade, capacidade de assumir erros, resolução de problemas e formas mais saudáveis de enfrentar vergonha, culpa, rejeição e frustração.
Dizer a verdade algumas vezes significa suportar algo desagradável. Significa admitir: “Eu errei.”, “Eu não fiz.”, “Eu esqueci.”, “Eu estava com medo.”, “Eu não sou aquilo que tentei parecer.”. E aprender a tolerar esse desconforto pode ser muito mais transformador do que simplesmente aprender que “mentir é errado”.
Quando descobrimos uma mentira, nossa primeira pergunta costuma ser: “Por que essa pessoa mentiu para mim?” É uma pergunta legítima, principalmente quando houve quebra de confiança. Mas, do ponto de vista psicológico, existe outra pergunta igualmente importante: “O que essa pessoa acreditava que aconteceria se dissesse a verdade?” A resposta não torna a mentira aceitável nem elimina suas consequências. Mas pode nos ajudar a compreender sua função, já que, algumas vezes, por trás de uma mentira existe manipulação ou busca por vantagem. Em outras, existe medo, vergonha, necessidade de aprovação, tentativa de evitar consequências. Ou uma história inteira construída para esconder aquilo que a pessoa acredita que não poderia mostrar.
Compreender por que alguém mente não significa justificar a mentira, e sim compreender um comportamento humano, e, quando ele se torna repetitivo, prejudicial ou difícil de controlar, descobrir o que precisa ser trabalhado para que a verdade deixe de parecer tão ameaçadora.
Silvia Helena dos Santos
Psicóloga 🦋
CRP 06/80275



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