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Quando a Tela Ocupa o Lugar da Presença

Foto do escritor: Silvia Helena
Silvia Helena
há 24 horas
4 min de leitura

Talvez uma das cenas mais comuns dos relacionamentos atuais seja também uma das mais silenciosas: duas pessoas no mesmo sofá, na mesma cama ou sentadas à mesma mesa, cada uma olhando para o próprio celular. Não estão brigando. E também não estão necessariamente insatisfeitas. Às vezes, nem percebem que há algo acontecendo.


Um está em um joguinho. O outro no Instagram. Depois vêm os vídeos curtos, as mensagens, mais uma olhada nas notificações, “só mais uma fase”, “só mais um vídeo”. Quando percebem, passou uma hora, e quase nenhuma palavra foi trocada. Fisicamente próximos. Emocionalmente, cada um em seu próprio mundo. Às vezes nem há desconfiança. Há distância.


O problema não é o celular

É importante começar por aqui. Descansar é necessário. Entretenimento não é perda de tempo simplesmente porque não é produtivo. Ninguém precisa transformar todas as horas do dia em trabalho, exercício, estudo ou alguma atividade considerada “útil”. Jogar, assistir a vídeos, navegar pelas redes sociais ou simplesmente não fazer nada pode ser uma forma legítima de lazer.


A questão começa a mudar quando deixamos de escolher conscientemente o que fazer com nosso tempo e passamos a repetir determinados comportamentos quase automaticamente. Pegamos o celular sem perceber. Abrimos um aplicativo sem ter decidido abri-lo. Entramos para responder uma mensagem e, vinte minutos depois, estamos vendo conteúdos que sequer procurávamos.


Nos jogos, algo semelhante pode acontecer: uma fase leva à outra, há recompensas, metas, desafios e estímulos frequentes que favorecem a permanência naquele comportamento. Isso não significa que toda pessoa que passa bastante tempo no celular tenha uma “dependência”. É importante evitar diagnósticos precipitados. Mas o uso pode se tornar problemático muito antes de preencher critérios para qualquer transtorno.


Uma pergunta é mais útil do que contar simplesmente quantas horas alguém passa conectado: O que está deixando de acontecer enquanto eu estou diante dessa tela?


Quando o celular entra no relacionamento

Existe inclusive um termo utilizado na literatura para um comportamento cada vez mais frequente: phubbing, combinação das palavras inglesas phone e snubbing. De maneira simples, é quando ignoramos ou deixamos em segundo plano alguém que está fisicamente conosco porque nossa atenção está voltada para o celular. Pode parecer algo pequeno, mas imagine isso acontecendo repetidamente.


Você começa a contar alguma coisa e percebe que o outro continua olhando para a tela. Faz uma pergunta e recebe um “hum-hum” automático. Tenta iniciar uma conversa e escuta “espera só eu terminar isso”. Deita-se ao lado da pessoa que ama, mas cada um passa a última hora acordado olhando para um aparelho. Nenhum desses episódios, isoladamente, provavelmente destruirá um relacionamento. O problema está na repetição.


Relacionamentos são alimentados por pequenas interações: comentários aparentemente bobos, perguntas sobre o dia, brincadeiras, contato físico, olhares, demonstrações espontâneas de interesse e aqueles assuntos que surgem justamente porque duas pessoas estavam disponíveis uma para a outra. Quando todos os pequenos intervalos da vida passam a ser preenchidos por uma tela, diminuem também as oportunidades para essas interações. O casal continua dividindo o espaço, mas pode deixar progressivamente de compartilhar experiências.


Por que é tão difícil simplesmente largar?

Pela perspectiva da Terapia Cognitivo-Comportamental, podemos compreender esse comportamento observando a relação entre situação, pensamentos, emoções, comportamento e consequências.


Imagine alguém chegando em casa cansado depois de um dia difícil. Pega o celular “por alguns minutos”. O jogo oferece uma meta simples e uma recompensa rápida. O vídeo seguinte já está disponível. A rede social apresenta continuamente alguma novidade. Naquele momento, a pessoa sente alívio do cansaço, do tédio, da preocupação ou até de alguma tensão existente dentro do próprio relacionamento. O comportamento, portanto, foi recompensado.


Se isso acontece repetidamente, pode se estabelecer um hábito: desconforto → celular → distração/alívio → repetição.


E existe outro aspecto importante: às vezes, a tela não está apenas oferecendo entretenimento. Ela está ajudando a evitar alguma coisa: Conversas difíceis. Silêncio desconfortável. Solidão. Ansiedade. Problemas conjugais. Tédio. Frustrações. Nesse caso, diminuir o celular exige mais do que estabelecer um limite de tempo. Pode ser necessário compreender qual função aquele comportamento está cumprindo.


Algumas estratégias da TCC podem ajudar

O primeiro passo é aumentar a consciência sobre o comportamento. Durante alguns dias, observe quando você pega o celular sem uma necessidade específica. O que estava acontecendo naquele momento? Como você estava se sentindo? Quanto tempo pretendia ficar? Quanto tempo realmente ficou?


Depois, pequenas mudanças ambientais / comportamentais podem reduzir o automatismo:

  • Desativar notificações desnecessárias

  • Retirar jogos e redes sociais da tela inicial

  • Estabelecer horários específicos para utilizá-los

  • Definir um limite antes de começar


    Estratégias simples, mas úteis.

    “Ah, parece que sou criança agora?”.

Às vezes temos que nos assumir tendo um comportamento quase que infantil para “consertar”.


Também é possível criar espaços protegidos de presença. Refeições sem celular. Uma caminhada. O café da manhã. Os primeiros minutos depois de chegar em casa. Um período antes de dormir. Um filme assistido realmente juntos. Não é necessário transformar a casa em uma zona livre de tecnologia. Trata-se de preservar alguns momentos nos quais a pessoa ao nosso lado tenha nossa atenção inteira.


Para os casais, há ainda uma questão fundamental: os limites precisam ser conversados, e não impostos. Em vez de: “Você não larga esse celular!”, pode ser muito mais produtivo dizer: “Tenho sentido falta de conversar com você sem que nenhum de nós esteja olhando para uma tela.” A primeira frase acusa. A segunda revela uma necessidade.


Talvez não estejamos apenas perdendo tempo

Quando falamos sobre excesso de celular, geralmente pensamos em produtividade: “Eu poderia ter estudado”, “poderia ter feito exercício”, “perdi duas horas”. Mas existe um custo mais difícil de contabilizar. Talvez, naquela hora, você pudesse simplesmente ter conversado com alguém que ama. Intimidade precisa de oportunidades para acontecer.


Temos que proteger nossa capacidade de estar verdadeiramente presentes em um ambiente no qual existe sempre alguma coisa tentando capturar nossa atenção. Não precisamos abandonar os jogos, nem excluir todas as redes sociais. Não precisamos nos sentir culpados por querer passar alguns minutos olhando bobagens depois de um dia cansativo.


Precisamos apenas recuperar uma habilidade que parece cada vez mais preciosa: discernir quando estamos escolhendo a tela, e quando a tela está escolhendo por nós.


Existem momentos em que talvez nenhuma notificação, vídeo, postagem ou fase de um jogo seja tão importante quanto levantar os olhos e perceber quem está ali. Bem ao nosso lado.


Silvia Helena dos Santos

Psicóloga 🦋

CRP 06/80275

 
 
 

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