De quem é essa Escolha?


Vi recentemente um corte de um vídeo de Clóvis de Barros Filho que me fez pensar sobre algo que encontro há muitos anos no consultório: o quanto a escolha profissional de um filho pode mobilizar expectativas que, muitas vezes, começaram muito antes de ele próprio pensar no que gostaria de ser.
No vídeo, Clóvis conta a história de um empresário que não queria que o filho fosse professor de História. Para aquele pai, seguir essa profissão significaria abrir mão de dinheiro, prestígio e reconhecimento. Clóvis responde lembrando de um professor de História extremamente conhecido e aplaudido (Leandro Karnal) e termina a história com uma provocação dirigida ao empresário: afinal, quem era mais conhecido, aquele professor ou ele? A história provoca risos, mas a reflexão que fica é muito mais séria.
Desde quando o valor de uma escolha profissional pode ser medido apenas pelo dinheiro, pelo status ou pelo prestígio que ela proporciona? Dinheiro importa. Mas não é a única coisa que importa. É claro que nossos filhos precisarão pagar contas. Mercado de trabalho importa. Remuneração importa. Empregabilidade importa. Possibilidades de crescimento também importam.
Por isso, apoiar a escolha profissional de um adolescente não significa dizer simplesmente: “Faça o que você ama e tudo dará certo”.
Talvez não dê.
Toda escolha profissional precisa de alguma dose de realidade, informação e planejamento. E devemos lembrar que toda escolha implica em perdas. Escolher uma profissão significa abrir mão de todas as outras. O problema acontece quando esses critérios deixam de fazer parte da conversa e passam a determinar sozinhos o que é considerado uma profissão digna de ser escolhida.
Por exemplo:
Medicina é sucesso. Arte é risco.
Engenharia é futuro. História é perda de tempo.
Direito é profissão. Música é hobby.
E assim, pouco a pouco, algumas possibilidades vão sendo descartadas antes mesmo de serem verdadeiramente conhecidas.
Os olhos que brilham no consultório
Em 21 anos como psicóloga, já vi muitos adolescentes falarem sobre uma profissão e, de repente, mudarem até a expressão do rosto. Os olhos brilham.Eles começam a falar mais rápido, entusiasmados. Contam o que imaginam fazer, onde gostariam de estudar, por que aquilo os interessa.
E então, algumas vezes, vem a continuação:
“Mas meus pais não querem.”
“Minha mãe acha que isso não dá futuro.”
“Meu pai diz que eu tenho capacidade para coisa melhor.”
É uma frase especialmente dolorosa, aliás: “Você tem capacidade para coisa melhor.”
Porque, ainda que não seja essa a intenção dos pais, o adolescente pode escutar outra mensagem:
Aquilo que você deseja não tem valor.
E há ainda uma situação muito comum: quando os pais não apenas desaprovam a escolha do filho, mas já possuem uma escolha pronta para ele: “Um dia tudo isso será seu” Pode existir uma empresa construída durante décadas.
Um escritório.
Um consultório.
Uma profissão tradicional na família.
Ou simplesmente um pai que ama profundamente aquilo que faz e sempre imaginou o filho seguindo seus passos. É compreensível. Há algo muito bonito, inclusive, em desejar transmitir aos filhos aquilo que construímos durante uma vida.
O problema começa quando uma possibilidade se transforma em uma obrigação.
Existe uma diferença enorme entre dizer:
“Eu construí esse caminho e ele estará aberto para você, se você quiser.”
e dizer:
“Eu construí esse caminho para você.”
A primeira frase oferece uma oportunidade. A segunda pode entregar ao filho um destino que ele nunca escolheu. E talvez seja difícil para alguns pais compreenderem que um filho não querer assumir a empresa da família, seguir sua profissão ou continuar aquilo que construíram não significa rejeitá-los. Significa apenas que aquele filho é uma pessoa diferente.
Escolher uma profissão também é construir identidade
Na adolescência, a escolha profissional acontece justamente em uma fase marcada pela construção da identidade e pelo desenvolvimento progressivo da autonomia. Perguntas aparentemente profissionais carregam outras muito maiores:
Quem sou eu? Do que eu gosto? No que sou bom? Que tipo de vida quero ter? O que é importante para mim? Quem quero me tornar? É por isso que a escolha profissional pode mobilizar tanto uma família.
O adolescente está começando a escrever uma história própria, e nem sempre ela será a continuação da história que seus pais imaginaram.
Isso não significa que ele deva fazer essa escolha sozinho. Muito pelo contrário. Adolescentes precisam de adultos que façam perguntas, apresentem informações, mostrem consequências e os ajudem a enxergar aspectos da realidade que talvez ainda não consigam perceber. Orientar, porém, é diferente de determinar.
Quando o desejo de proteger vira pressão
Na maioria das vezes, os pais que pressionam um filho em relação à profissão acreditam estar fazendo exatamente o contrário: protegendo.
“Eu só não quero que ele passe pelas dificuldades que passei.”
“Quero que tenha estabilidade.”
“Ele tem tanto potencial.”
“Eu poderia deixar tudo pronto para ele.”
São preocupações legítimas. Mas é importante observar quando a preocupação começa a carregar outra mensagem: “Eu aprovarei sua escolha desde que ela seja parecida com a escolha que eu faria por você.” Nesse momento, o adolescente pode deixar de estar diante apenas de uma decisão profissional. Ele passa a viver um conflito muito mais doloroso: seguir aquilo que deseja ou corresponder às expectativas de quem ama.
Alguns acabam escolhendo a segunda opção. Entram na faculdade esperada, seguem a profissão considerada adequada e cumprem o projeto. Talvez não sejam infelizes. Às vezes descobrem naquele caminho algo que também passa a fazer sentido. Mas, em outros casos, anos depois, aparece uma pergunta difícil: “Em que momento eu escolhi isso?”
Então os pais não devem interferir?
Devem participar. E muito. Só que existe uma diferença entre interferir no sentido de ajudar a pensar e interferir no sentido de decidir pelo outro.
Em vez de apenas perguntar:
“Essa profissão dá dinheiro?”, talvez possamos ampliar a conversa: “Como está o mercado nessa área?”, “Quais são as possibilidades de atuação?”, “Como é a rotina desse profissional?”, “Quanto costuma ganhar no início da carreira?”, “Que formação será necessária?”, “Quais são as dificuldades?”, “Você conhece profissionais que trabalham com isso?”, “O que combina com você nessa profissão?”
E existe uma pergunta que, para mim, merece um lugar especial: “O que existe nessa profissão que faz seus olhos brilharem desse jeito?”
Perceba que isso não é abandonar o adolescente aos próprios sonhos. É ajudá-lo a transformar desejo em projeto.
E onde entra a Orientação Profissional?
Orientação Profissional não deveria ser entendida como um teste capaz de revelar magicamente “a profissão certa”. Escolher uma carreira é muito mais complexo.
Um bom processo envolve autoconhecimento, interesses, habilidades, valores, características pessoais, expectativas de futuro, estilo de vida desejado, conhecimento das profissões e investigação da realidade acadêmica e do mercado de trabalho. E também pode ajudar o adolescente a perceber as influências presentes em sua escolha.
Às vezes, uma das perguntas mais importantes do processo será: “Quanto dessa escolha é realmente meu, e quanto é aquilo que esperam de mim?”
A família pode ser uma grande aliada nesse percurso. Pode ajudar a pesquisar, apresentar possibilidades, conversar sobre dinheiro, compartilhar experiências e abrir portas. O que nenhuma família consegue fazer é viver, no lugar do filho, as décadas profissionais que virão depois daquela escolha.
Filhos não são continuações dos pais
Talvez seu filho não queira assumir sua empresa, não queira seu consultório, não queira cursar a mesma faculdade que você. Talvez escolha uma profissão que você jamais escolheria ou mude de ideia no meio do caminho. Talvez precise recomeçar. Tudo isso pode acontecer.
Criar um filho também envolve assistir, pouco a pouco, ao surgimento de uma pessoa que não é uma extensão de nós. Uma pessoa com outros interesses, outros talentos, outros valores e outros sonhos.
Depois de tantos anos ouvindo adolescentes no consultório, continuo achando especialmente bonito quando vejo aqueles olhos brilharem ao falar do futuro. Nem sempre esse brilho aponta para o caminho que os pais imaginaram. Nossa tarefa não é apagar esse brilho para iluminar outro caminho, e sim chegar um pouco mais perto, olhar junto e perguntar:
“Então me conta. O que você enxerga lá?”
E, a partir daí, ajudá-los a descobrir como chegar.
Silvia Helena dos Santos
Psicóloga
CRP 06/80275



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