As Marcas que o Bullying Deixa


Recentemente, um influenciador bastante conhecido conhecido como Felca (Felipe Bressanim Pereira) publicou um vídeo que, na minha opinião, merece ser assistido com bastante atenção, especialmente por pais, educadores e profissionais que trabalham com crianças e adolescentes.
Conhecido por seu trabalho na internet e pela repercussão de sua denúncia sobre a adultização infantil, Felca decidiu falar sobre algo profundamente pessoal: sua história de sofrimento psicológico.
Durante a infância e a adolescência, foi vítima de bullying, agressões físicas, humilhações e situações de violência dentro da escola. Relatou episódios tão graves que o simples pensamento de frequentar aquele ambiente já provocava medo. Hoje, mesmo depois de conquistar reconhecimento profissional, continua enfrentando a fobia social, também conhecida como transtorno de ansiedade social. E sua história nos permite compreender alguns aspectos importantes do desenvolvimento psicológico.
Quando a infância ensina que o mundo é perigoso
Na Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC), compreendemos que nossas experiências, especialmente aquelas vividas durante o desenvolvimento, podem influenciar profundamente a maneira como interpretamos a nós mesmos, as outras pessoas e o mundo.
São formadas na infância as chamadas crenças centrais, ideias profundas que construímos ao longo da vida e que frequentemente tomamos como verdades absolutas.
Uma criança repetidamente humilhada pode desenvolver crenças como:
“Sou inferior às outras pessoas.”
“Ninguém gosta de mim.”
“Se eu me expuser, serei ridicularizado.”
“As pessoas são perigosas.”
“Não sou capaz de me defender.”
Essas crenças podem continuar influenciando o comportamento mesmo quando as circunstâncias mudam. A criança cresce, muda de escola, conquista amigos, desenvolve habilidades e alcança sucesso profissional. Entretanto, emocionalmente, pode continuar esperando a rejeição que conheceu tantos anos antes.
É importante esclarecer que nem toda vítima de bullying desenvolverá um transtorno psicológico. Existem fatores de proteção, como apoio familiar, vínculos afetivos seguros e acesso a tratamento. Mas a exposição prolongada à violência pode aumentar significativamente a vulnerabilidade emocional.
Fobia social não é simplesmente timidez
O transtorno de ansiedade social envolve medo intenso de situações nas quais a pessoa acredita que poderá ser observada, julgada, humilhada ou rejeitada. Esse medo pode provocar sintomas físicos importantes, como taquicardia, sudorese, tremores, náuseas e sensação de perda de controle.
No relato de Felca, chama a atenção o fato de que, mesmo habituado a se comunicar com milhões de pessoas pela internet, ele continua experimentando ansiedade intensa diante de determinadas situações presenciais.
Isso nos lembra que sucesso profissional não significa ausência de sofrimento emocional. A pessoa pode ser extremamente competente e, ainda assim, conviver com medos que interferem profundamente em sua qualidade de vida.
Outro aspecto importante é o comportamento de evitação. Quando alguém evita uma situação temida, experimenta um alívio imediato. O problema é que esse alívio pode reforçar a ideia de que fugir foi necessário para permanecer seguro. Assim, o medo se mantém.
O enfrentamento e a Terapia Cognitivo-Comportamental
Um dos recursos mais importantes no tratamento da fobia social é a exposição gradual, planejada e acompanhada de intervenções cognitivas. Isso significa ajudar a pessoa a enfrentar, progressivamente, situações que costuma evitar, respeitando suas condições e trabalhando as interpretações que alimentam a ansiedade.
Por exemplo, alguém que teme interações sociais pode começar cumprimentando um desconhecido, depois fazendo uma pergunta, participando de uma pequena conversa e, gradualmente, enfrentando situações mais desafiadoras.
A proposta não é simplesmente obrigar alguém a enfrentar seus maiores medos, e sim oferecer condições para que desenvolva novas experiências de aprendizagem, perceba sua capacidade de lidar com o desconforto e questione previsões catastróficas.
Felca menciona justamente a necessidade de voltar a se expor às situações sociais, apesar da ansiedade. Sua iniciativa traz uma mensagem importante: não precisamos esperar o medo desaparecer completamente para começar a recuperar nossa liberdade.
Entretanto, quando a ansiedade é intensa e incapacitante, o enfrentamento deve ser individualizado, preferencialmente com acompanhamento profissional.
Proteger os filhos não significa evitar todas as frustrações
Outro ponto muito relevante do vídeo diz respeito à educação dos filhos. Naturalmente, queremos protegê-los do sofrimento. Entretanto, existe uma diferença fundamental entre oferecer proteção e impedir que desenvolvam recursos para enfrentar as dificuldades da vida.
Na psicologia, falamos sobre a importância do desenvolvimento da autonomia, da autoeficácia e da tolerância à frustração.
Albert Bandura, psicólogo responsável pela teoria da autoeficácia, demonstrou a importância das experiências de domínio, ou seja, da percepção de que somos capazes de enfrentar desafios e desenvolver competências.
Quando os adultos resolvem absolutamente tudo pelas crianças, podem, involuntariamente, limitar algumas dessas oportunidades de aprendizagem. Mas é fundamental fazer uma distinção: uma criança jamais deve ser deixada sozinha para enfrentar violência, humilhações ou bullying. Isso não é uma frustração necessária ao amadurecimento. É uma situação que exige proteção e intervenção dos adultos.
O que devemos estimular são desafios proporcionais à idade, pequenas responsabilidades, resolução de conflitos cotidianos e oportunidades de desenvolver independência em ambientes seguros. A autonomia se constrói com apoio, não com abandono.
A importância de levar o sofrimento a sério
Felca também relatou momentos de sofrimento psicológico extremo, incluindo pensamentos de tirar a própria vida. Esse aspecto de sua história não deve ser tratado como exagero, fraqueza ou tentativa de chamar atenção.
A ideação suicida é um sinal de sofrimento que exige acolhimento, avaliação cuidadosa e, quando necessário, intervenção especializada. A exposição prolongada à violência, o isolamento social e os transtornos de ansiedade podem estar associados a um aumento do risco de depressão e de outros problemas emocionais.
Por isso, combater o bullying não é apenas ensinar crianças a serem mais educadas. É uma questão de saúde pública.
Famílias e escolas precisam observar mudanças de comportamento, resistência intensa em frequentar as aulas, isolamento, queda no rendimento, sintomas físicos recorrentes e manifestações de medo ou desesperança.
E, principalmente, precisam escutar. Nem toda criança consegue explicar claramente aquilo que está vivendo. Às vezes, o sofrimento aparece no silêncio, na irritabilidade, nas dores de barriga antes da escola ou na recusa de participar de atividades.
Para terminar
O relato de Felca nos lembra que algumas experiências da infância podem deixar marcas que permanecem por muitos anos. Mas também nos mostra que essas marcas não precisam determinar toda a nossa história. Com tratamento, apoio, novas experiências e enfrentamento gradual, é possível modificar crenças, desenvolver habilidades e construir uma relação diferente com o mundo.
Como psicóloga, considero especialmente importante que relatos como esse sejam compartilhados. Eles ajudam a diminuir o preconceito, ampliam o conhecimento sobre os transtornos psicológicos e podem fazer com que pessoas que sofrem silenciosamente procurem ajuda.
Deixo aqui o link do vídeo do Felca para quem se interessar. É forte e muito sensível:
Silvia Helena dos Santos
Psicóloga
CRP 06/80275



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