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As Marcas que o Bullying Deixa

Foto do escritor: Silvia Helena
Silvia Helena
há 13 horas
4 min de leitura

Recentemente, um influenciador bastante conhecido conhecido como Felca (Felipe Bressanim Pereira) publicou um vídeo que, na minha opinião, merece ser assistido com bastante atenção, especialmente por pais, educadores e profissionais que trabalham com crianças e adolescentes.


Conhecido por seu trabalho na internet e pela repercussão de sua denúncia sobre a adultização infantil, Felca decidiu falar sobre algo profundamente pessoal: sua história de sofrimento psicológico.


Durante a infância e a adolescência, foi vítima de bullying, agressões físicas, humilhações e situações de violência dentro da escola. Relatou episódios tão graves que o simples pensamento de frequentar aquele ambiente já provocava medo. Hoje, mesmo depois de conquistar reconhecimento profissional, continua enfrentando a fobia social, também conhecida como transtorno de ansiedade social. E sua história nos permite compreender alguns aspectos importantes do desenvolvimento psicológico.


Quando a infância ensina que o mundo é perigoso

Na Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC), compreendemos que nossas experiências, especialmente aquelas vividas durante o desenvolvimento, podem influenciar profundamente a maneira como interpretamos a nós mesmos, as outras pessoas e o mundo.

São formadas na infância as chamadas crenças centrais, ideias profundas que construímos ao longo da vida e que frequentemente tomamos como verdades absolutas.


Uma criança repetidamente humilhada pode desenvolver crenças como:

  • “Sou inferior às outras pessoas.”

  • “Ninguém gosta de mim.”

  • “Se eu me expuser, serei ridicularizado.”

  • “As pessoas são perigosas.”

  • “Não sou capaz de me defender.”


Essas crenças podem continuar influenciando o comportamento mesmo quando as circunstâncias mudam. A criança cresce, muda de escola, conquista amigos, desenvolve habilidades e alcança sucesso profissional. Entretanto, emocionalmente, pode continuar esperando a rejeição que conheceu tantos anos antes.


É importante esclarecer que nem toda vítima de bullying desenvolverá um transtorno psicológico. Existem fatores de proteção, como apoio familiar, vínculos afetivos seguros e acesso a tratamento. Mas a exposição prolongada à violência pode aumentar significativamente a vulnerabilidade emocional.


Fobia social não é simplesmente timidez

O transtorno de ansiedade social envolve medo intenso de situações nas quais a pessoa acredita que poderá ser observada, julgada, humilhada ou rejeitada. Esse medo pode provocar sintomas físicos importantes, como taquicardia, sudorese, tremores, náuseas e sensação de perda de controle.


No relato de Felca, chama a atenção o fato de que, mesmo habituado a se comunicar com milhões de pessoas pela internet, ele continua experimentando ansiedade intensa diante de determinadas situações presenciais.


Isso nos lembra que sucesso profissional não significa ausência de sofrimento emocional. A pessoa pode ser extremamente competente e, ainda assim, conviver com medos que interferem profundamente em sua qualidade de vida.


Outro aspecto importante é o comportamento de evitação. Quando alguém evita uma situação temida, experimenta um alívio imediato. O problema é que esse alívio pode reforçar a ideia de que fugir foi necessário para permanecer seguro. Assim, o medo se mantém.


O enfrentamento e a Terapia Cognitivo-Comportamental

Um dos recursos mais importantes no tratamento da fobia social é a exposição gradual, planejada e acompanhada de intervenções cognitivas. Isso significa ajudar a pessoa a enfrentar, progressivamente, situações que costuma evitar, respeitando suas condições e trabalhando as interpretações que alimentam a ansiedade.


Por exemplo, alguém que teme interações sociais pode começar cumprimentando um desconhecido, depois fazendo uma pergunta, participando de uma pequena conversa e, gradualmente, enfrentando situações mais desafiadoras.


A proposta não é simplesmente obrigar alguém a enfrentar seus maiores medos, e sim oferecer condições para que desenvolva novas experiências de aprendizagem, perceba sua capacidade de lidar com o desconforto e questione previsões catastróficas.


Felca menciona justamente a necessidade de voltar a se expor às situações sociais, apesar da ansiedade. Sua iniciativa traz uma mensagem importante: não precisamos esperar o medo desaparecer completamente para começar a recuperar nossa liberdade.


Entretanto, quando a ansiedade é intensa e incapacitante, o enfrentamento deve ser individualizado, preferencialmente com acompanhamento profissional.


Proteger os filhos não significa evitar todas as frustrações

Outro ponto muito relevante do vídeo diz respeito à educação dos filhos. Naturalmente, queremos protegê-los do sofrimento. Entretanto, existe uma diferença fundamental entre oferecer proteção e impedir que desenvolvam recursos para enfrentar as dificuldades da vida.


Na psicologia, falamos sobre a importância do desenvolvimento da autonomia, da autoeficácia e da tolerância à frustração.


Albert Bandura, psicólogo responsável pela teoria da autoeficácia, demonstrou a importância das experiências de domínio, ou seja, da percepção de que somos capazes de enfrentar desafios e desenvolver competências.


Quando os adultos resolvem absolutamente tudo pelas crianças, podem, involuntariamente, limitar algumas dessas oportunidades de aprendizagem. Mas é fundamental fazer uma distinção: uma criança jamais deve ser deixada sozinha para enfrentar violência, humilhações ou bullying. Isso não é uma frustração necessária ao amadurecimento. É uma situação que exige proteção e intervenção dos adultos.


O que devemos estimular são desafios proporcionais à idade, pequenas responsabilidades, resolução de conflitos cotidianos e oportunidades de desenvolver independência em ambientes seguros. A autonomia se constrói com apoio, não com abandono.


A importância de levar o sofrimento a sério

Felca também relatou momentos de sofrimento psicológico extremo, incluindo pensamentos de tirar a própria vida. Esse aspecto de sua história não deve ser tratado como exagero, fraqueza ou tentativa de chamar atenção.


A ideação suicida é um sinal de sofrimento que exige acolhimento, avaliação cuidadosa e, quando necessário, intervenção especializada. A exposição prolongada à violência, o isolamento social e os transtornos de ansiedade podem estar associados a um aumento do risco de depressão e de outros problemas emocionais.


Por isso, combater o bullying não é apenas ensinar crianças a serem mais educadas. É uma questão de saúde pública.


Famílias e escolas precisam observar mudanças de comportamento, resistência intensa em frequentar as aulas, isolamento, queda no rendimento, sintomas físicos recorrentes e manifestações de medo ou desesperança.


E, principalmente, precisam escutar. Nem toda criança consegue explicar claramente aquilo que está vivendo. Às vezes, o sofrimento aparece no silêncio, na irritabilidade, nas dores de barriga antes da escola ou na recusa de participar de atividades.


Para terminar

O relato de Felca nos lembra que algumas experiências da infância podem deixar marcas que permanecem por muitos anos. Mas também nos mostra que essas marcas não precisam determinar toda a nossa história. Com tratamento, apoio, novas experiências e enfrentamento gradual, é possível modificar crenças, desenvolver habilidades e construir uma relação diferente com o mundo.


Como psicóloga, considero especialmente importante que relatos como esse sejam compartilhados. Eles ajudam a diminuir o preconceito, ampliam o conhecimento sobre os transtornos psicológicos e podem fazer com que pessoas que sofrem silenciosamente procurem ajuda.


Deixo aqui o link do vídeo do Felca para quem se interessar. É forte e muito sensível:



Silvia Helena dos Santos

Psicóloga

CRP 06/80275


 
 
 

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