top of page
Buscar

Simplificar a Vida

Foto do escritor: Silvia Helena
Silvia Helena
há 11 minutos
4 min de leitura

Há alguns anos, venho tentando adotar uma estratégia para a vida que, à primeira vista, parece bastante simples: tirar os problemas da frente, um a um. Não ignorá-los, nem fingir que não existem. Muito menos colocar tudo debaixo do tapete em nome de uma suposta “paz”, como alguns fazem.


Justamente o contrário. Se existe uma dívida que tira seu sono, organize-se para pagá-la. Se manter determinada casa ou determinado padrão de vida se tornou um peso, talvez seja preciso rever esse padrão. Se os seus planos estão exigindo recursos, energia ou tempo que você não tem, faça planos mais realistas. Se uma relação repetidamente machuca, estabeleça limites e, se necessário, afaste-se.


Há uma diferença enorme entre evitar um problema e resolvê-lo.


Talvez uma das “sacadas” mais interessantes de se tornar adulto seja perceber que nem sempre precisamos acrescentar alguma coisa à vida para que ela fique melhor. Às vezes, precisamos retirar.


A filosofia já falava sobre isso

Essa ideia está longe de ser nova. Os filósofos estoicos, como Epicteto, Sêneca e Marco Aurélio, refletiram extensamente sobre o sofrimento que surge quando gastamos nossa energia tentando controlar aquilo que não está sob nosso domínio.


Epicteto propunha uma distinção fundamental: existem coisas que dependem de nós e coisas que não dependem. Não controlamos o comportamento das pessoas, as perdas, os imprevistos, o envelhecimento, o passado ou o que os outros pensam sobre nós. Mas podemos exercer alguma escolha sobre nossas decisões, atitudes, prioridades e sobre a maneira como responderemos ao que acontece.


Se algo pode ser mudado, agimos. Se não pode, precisamos aprender a não entregar toda a nossa vida à luta contra o inevitável.


Simplificar também passa por essa pergunta:

“Quanto da minha energia está sendo gasta tentando controlar coisas que não estão sob meu controle?”


Epicuro e a arte de precisar de menos

Epicuro é um pensador muito interessante. Quando ouvimos a palavra hedonismo, frequentemente pensamos em excessos, prazeres, luxo e satisfação imediata dos desejos. Mas o pensamento epicurista é muito mais sofisticado do que isso. Para Epicuro, uma vida boa não dependia da busca incessante por prazeres cada vez maiores. Ele valorizava a tranquilidade, a amizade, a simplicidade e a diminuição dos sofrimentos desnecessários.

Parte da sabedoria estaria justamente em aprender a distinguir aquilo de que realmente precisamos daquilo que simplesmente aprendemos a desejar.


Precisamos mesmo de uma casa maior?

De outro objeto?

De reconhecimento de determinadas pessoas?

De provar alguma coisa?

De alcançar imediatamente a próxima meta?

De sustentar um padrão de vida apenas porque já nos acostumamos com ele?

Ou porque estamos nos comparando?


Há desejos que nos movimentam e dão sentido à vida. Mas existem outros que funcionam como uma esteira: quanto mais conseguimos, mais o ponto de chegada se afasta.

Definitivamente uma das maiores liberdades é conseguir dizer: “Isso já é suficiente para mim.”


A Psicologia também fala de simplificação

Na Terapia Cognitivo-Comportamental, existe um conceito aparentemente pouco filosófico, mas mutíssimo poderoso: resolução de problemas.

Quando estamos diante de uma dificuldade, podemos ruminar sobre ela durante meses ou podemos tentar transformá-la em algo concreto:

Qual é exatamente o problema?

O que depende de mim?

Quais alternativas existem?

Qual delas é possível neste momento?

Qual é o primeiro passo?

Nem todo problema terá uma solução perfeita, mas muitos sofrimentos se tornam maiores porque convivemos indefinidamente com situações que poderiam ser enfrentadas em pequenas etapas.

Por exemplo:

Uma dívida gigantesca pode começar com uma planilha.

Uma rotina insustentável pode começar com um “não”.

Uma relação desgastante pode começar com um limite.

Uma mudança de vida pode começar com a aceitação de que determinado projeto já não combina mais conosco.


Resolver um problema por vez também diminui a carga mental que carregamos.


Simplificar não é desistir

Simplificar não significa abandonar sonhos, tornar-se acomodado ou viver sem ambição. Você pode querer crescer profissionalmente, viajar, estudar, melhorar sua condição financeira, conquistar coisas novas. A questão talvez é outra: quanto você está disposto a sacrificar para conseguir cada uma delas? Porque, pense bem, toda escolha tem um preço.


Alguns sonhos custam dinheiro. Outros custam tempo. Alguns custam tranquilidade. Outros exigem anos de dedicação. Mas nem todo sonho merece o preço que cobra.


Também podemos mudar de ideia.

Podemos descobrir que aquilo que desejávamos aos 30 já não é importante aos 40 ou 50. É isso não é fracasso. Significa que nós mudamos.


Simplificar também exibe uma espécie de coragem: a coragem de construir uma vida que faça sentido para você, mesmo que ela não impressione ninguém.


Tirar os problemas da frente

Gosto dessa ideia porque ela é concreta. É olhar ao redor e perguntar: “Qual problema eu consigo começar a resolver agora?”

Talvez seja financeiro.

Talvez seja uma conversa que está sendo adiada.

Talvez seja reorganizar a casa.

Talvez seja rever um compromisso.

Talvez seja estabelecer um limite.

Talvez seja aceitar que alguma coisa terminou.

E, depois de resolver esse, olhar para o próximo.

Pouco a pouco, talvez percebamos que paz não é necessariamente conquistar mais. Às vezes, paz é ter menos coisas pendentes dentro da cabeça.


Você consegue olhar para aquilo que construiu e sentir satisfação antes de imediatamente perguntar qual será a próxima conquista?

Você consegue fazer planos que caibam na sua realidade?

Consegue desejar sem transformar todo desejo em necessidade?


Entenda que uma vida mais simples não precisa ser uma vida menor. É justamente o contrário. Quando retiramos aquilo que ocupa espaço demais (excessos, dívidas, comparações, relações desgastantes, expectativas impossíveis e problemas eternamente adiados) começa a aparecer aquilo que estava escondido embaixo de tudo isso: a própria vida. Linda. Perfeita.

Silvia Helena dos Santos

Psicóloga – CRP 06/80275


 
 
 

Comentários

Avaliado com 0 de 5 estrelas.
Ainda sem avaliações

Adicione uma avaliação
bottom of page