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Infância: As Raízes de Quem Somos

Foto do escritor: Silvia Helena
Silvia Helena
há 4 minutos
7 min de leitura

Ontem, por ocasião do Dia das Crianças, compartilhei uma fotografia de 1985 e algumas lembranças da minha infância. Falei das brincadeiras com minhas irmãs, das férias maravilhosas com os primos, da convivência com meus avós, dos amigos da escola e das intermináveis tardes brincando na rua. Lembrei também dos meus pais, que trabalharam muito e que, pelo exemplo, me ensinaram valores como responsabilidade, honestidade e respeito aos compromissos assumidos.


Considero que tive uma infância muito feliz. Não foi tudo perfeito, mas tive oportunidades de brincar, aprender, conviver e, principalmente, sentir que pertencia a uma família.


Hoje, depois de tantos anos trabalhando como psicóloga, compreendo ainda melhor a importância dessas experiências. A infância não é apenas uma etapa que deixamos para trás quando crescemos. É um período fundamental do desenvolvimento humano, durante o qual começamos a construir nossa maneira de compreender o mundo, de nos relacionarmos com as pessoas e de enxergarmos a nós mesmos. E a Psicologia tem muito a nos ensinar sobre isso.


Por que a infância é tão importante?

Durante os primeiros anos de vida, nosso cérebro passa por um intenso processo de desenvolvimento. São formadas e reorganizadas inúmeras conexões neurais relacionadas à linguagem, à memória, à aprendizagem, ao controle das emoções e às habilidades sociais. Só que esse desenvolvimento não acontece isoladamente. A criança aprende sobre o mundo por meio das experiências que vive e, principalmente, das relações que estabelece com as pessoas responsáveis por seus cuidados.


Jean Piaget, um dos grandes estudiosos do desenvolvimento infantil, demonstrou que a criança não pensa simplesmente como um adulto em miniatura. Sua capacidade de raciocínio se desenvolve progressivamente, conforme amadurece e interage com o ambiente.


Já Vygotsky destacou a importância das relações sociais para a aprendizagem. A criança aprende por meio da convivência, da observação, da linguagem e das brincadeiras. E aqui faço uma observação que considero importante: brincar não é perder tempo. Brincar é desenvolver-se.


Quando uma criança brinca de faz de conta, exercita a imaginação, a criatividade e a capacidade de compreender diferentes situações. Quando brinca com outras crianças, aprende a negociar regras, compartilhar, esperar sua vez, lidar com pequenas frustrações e resolver conflitos.


É claro que hoje as formas de brincar são diferentes. A tecnologia faz parte da infância contemporânea e pode oferecer experiências interessantes. Entretanto, não deveria substituir completamente as brincadeiras livres, o movimento, o contato com outras crianças e a convivência familiar.


O afeto e a construção da segurança emocional

O psiquiatra e psicanalista John Bowlby desenvolveu a chamada Teoria do Apego, que explica a importância dos primeiros vínculos afetivos para o desenvolvimento emocional. Segundo essa teoria, a criança necessita estabelecer relações com adultos que ofereçam proteção, previsibilidade e disponibilidade emocional. Quando os cuidadores respondem de maneira sensível e consistente às suas necessidades, favorecem o desenvolvimento do chamado apego seguro.


Uma criança que se sente protegida tende a explorar o ambiente com mais confiança, sabendo que existe alguém a quem recorrer quando sente medo, tristeza ou insegurança. Mas atenção: oferecer segurança emocional não significa impedir que a criança sofra, fique triste ou se frustre. Significa estar disponível para ajudá-la a compreender e enfrentar essas experiências. Uma criança que perde um jogo, por exemplo, pode chorar, ficar irritada ou sentir vontade de desistir. O papel do adulto não é necessariamente fazer com que ela ganhe, mas ajudá-la a lidar com a derrota.


Educar também é ensinar que nem tudo acontecerá como desejamos, e que somos capazes de suportar isso. Essa aprendizagem será extremamente importante na adolescência e na vida adulta.


Os quatro estilos parentais: como a maneira de educar influencia os filhos?

De maneira simplificada, consideramos duas dimensões fundamentais da educação: o grau de afeto e responsividade dos pais e o grau de exigência, supervisão e estabelecimento de limites. A combinação dessas características deu origem à classificação de quatro estilos parentais.


1. Estilo autoritário: muitas regras, pouco diálogo

Nesse modelo, os pais costumam estabelecer regras rígidas, exigir obediência e oferecer pouco espaço para questionamentos.

Expressões como “porque eu estou mandando” ou “enquanto você morar nesta casa, fará o que eu disser” são exemplos conhecidos.

Crianças educadas predominantemente dessa maneira podem desenvolver dificuldades para expressar opiniões, medo excessivo de errar, insegurança ou uma necessidade muito grande de aprovação. Algumas podem apresentar comportamentos de oposição ou rebeldia, especialmente na adolescência. É importante destacar que estabelecer regras não torna um pai autoritário. A diferença está na maneira como essas regras são apresentadas e aplicadas.


2. Estilo permissivo: muito afeto, poucos limites

Nesse estilo, os pais costumam ser carinhosos e acolhedores, mas apresentam dificuldades para estabelecer ou sustentar limites. Muitas vezes, evitam contrariar os filhos porque não querem vê-los tristes, frustrados ou irritados. A criança acaba tendo grande liberdade para decidir questões para as quais ainda não possui maturidade suficiente.

Embora o afeto seja fundamental, a ausência de limites consistentes pode dificultar o desenvolvimento do autocontrole, da tolerância à frustração e do respeito às necessidades dos outros.

Amar também significa dizer não, e sustentar esse não, mesmo diante do choro ou da insatisfação da criança.


3. Estilo negligente: pouco afeto e pouca supervisão

Nesse modelo, há baixa disponibilidade emocional e pouco acompanhamento das necessidades da criança. Os pais ou responsáveis podem estar fisicamente presentes, mas pouco envolvidos com sua rotina, suas dificuldades e suas experiências emocionais.

É importante não confundir negligência com o fato de os pais trabalharem muito. Existem famílias em que os adultos passam longas horas fora de casa e, ainda assim, oferecem afeto, atenção, proteção e acompanhamento adequados.

A negligência está relacionada à ausência persistente de cuidados e envolvimento necessários ao desenvolvimento infantil. Crianças expostas a esse padrão apresentam maior risco de dificuldades emocionais, comportamentais e escolares. Precisamos lembrar que crianças dependem dos adultos não apenas para alimentação, higiene e segurança física, mas também para orientação, acolhimento e proteção emocional.


4. Estilo autoritativo ou democrático: afeto com limites

Esse estilo combina acolhimento emocional, comunicação aberta, supervisão e regras consistentes. Os pais reconhecem os sentimentos dos filhos, mas não deixam de exercer sua responsabilidade como adultos. A criança pode expressar tristeza, raiva e discordância, mas aprende que isso não significa poder fazer tudo o que deseja.

Por exemplo, um pai pode dizer: “Eu entendo que você esteja bravo porque precisa desligar o videogame. Sei que gostaria de continuar jogando, mas combinamos um horário e precisamos respeitá-lo.” Perceba que existe acolhimento do sentimento, mas também manutenção do limite.


Pesquisas sobre estilos parentais associam frequentemente esse modelo a melhores resultados em autonomia, habilidades sociais, autorregulação emocional e adaptação psicológica.

Naturalmente, essas associações não representam garantias. O temperamento da criança, as condições familiares, a cultura e muitos outros fatores também influenciam o desenvolvimento.


Ainda assim, afeto e limites não são opostos. São necessidades que se complementam.


Nossa infância influencia nossa história, mas não precisa determinar todo o seu desfecho.


Pais perfeitos não existem, e nem precisam existir.

Uma criança não necessita de um adulto perfeito, incapaz de cometer erros, mas de alguém que ofereça cuidados adequados e se adapte às suas necessidades ao longo do desenvolvimento.

Isso é especialmente importante nessa época em que vivemos, na qual tantos pais se sentem pressionados a acertar o tempo todo. É claro que devemos buscar conhecimento, rever comportamentos e reconhecer nossos erros. Mas também precisamos compreender que educar envolve cansaço, dúvidas, conflitos e dificuldades. Uma discussão ocasional, um momento de impaciência ou uma decisão equivocada não definem, isoladamente, toda uma relação parental. O que importa é a qualidade do vínculo ao longo do tempo, a capacidade de reconhecer falhas e a disposição para repará-las.


Aliás, quando um adulto reconhece que exagerou e pede desculpas ao filho, oferece uma lição valiosa: todos podemos errar, assumir responsabilidades e tentar fazer diferente. Pedir desculpas não diminui a autoridade dos pais. Pode fortalecer a confiança e ensinar responsabilidade emocional.


Uma infância feliz não significa uma infância sem frustrações. Acreditar que uma boa infância precisa ser livre de tristeza, conflitos e decepções é um dos maiores equívocos dos pais. Crianças precisam experimentar pequenas frustrações compatíveis com sua idade e maturidade. Precisam aprender que nem sempre serão escolhidas primeiro, que às vezes perderão, que outras pessoas terão opiniões diferentes e que determinados desejos precisarão esperar.


Proteger não deve significar impedir todas as dificuldades. Nosso papel não é preparar um mundo sem obstáculos para nossos filhos, mas ajudá-los a desenvolver recursos para enfrentar o mundo em que viverão.


O que realmente fica da infância?

Quando penso nas minhas próprias lembranças, percebo que muitas das experiências mais importantes não envolveram grandes acontecimentos ou presentes caros. Lembro das brincadeiras, das conversas, das férias em família, dos amigos, dos avós e daquela sensação de ter um lugar ao qual pertencer. É isso que tantas crianças necessitam: tempo, presença, oportunidades, segurança e afeto.


Evidentemente, não podemos romantizar a infância ignorando as desigualdades sociais. Ter acesso à alimentação adequada, moradia segura, saúde, educação, lazer e proteção contra a violência são direitos fundamentais, mas infelizmente ainda não são uma realidade para todas as crianças. Por isso, uma infância saudável não depende exclusivamente do esforço individual dos pais. Depende também das condições sociais e das oportunidades oferecidas às famílias. Ainda assim, dentro das possibilidades de cada realidade, existem atitudes que fazem uma diferença enorme: ouvir com atenção, brincar junto, demonstrar carinho, respeitar a individualidade, estabelecer limites coerentes e oferecer um ambiente emocionalmente seguro.


Para terminar, uma reflexão

Talvez não possamos oferecer aos nossos filhos exatamente a infância que tivemos. Os tempos mudaram, as famílias mudaram e o mundo também. Mas podemos preservar aquilo que continua sendo essencial: o amor, a proteção, o respeito, a convivência e a oportunidade de construir lembranças felizes.


Como mãe, sei que nem sempre é fácil. Como psicóloga, sei o quanto essas experiências podem ser importantes. E, olhando para aquela fotografia de 1985, penso que uma das maiores riquezas que recebi não foi algo que pudesse guardar em uma caixa ou medir em dinheiro. Foi a oportunidade de viver uma infância da qual gosto de me lembrar.


Que possamos oferecer às nossas crianças não uma infância perfeita, mas uma infância suficientemente boa, na qual elas se sintam amadas, protegidas e livres para serem crianças. Porque, muitos anos depois, quando os brinquedos já não existirem e as casas, as escolas e as ruas forem apenas lembranças, aquilo que foi vivido com afeto ainda poderá encontrar um lugar especial na memória.


E isso sim é um presente que pode durar a vida inteira.


Silvia Helena dos Santos

Psicóloga

CRP 06/80275


 
 
 

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