Quando a Dor Não Sangra
- Silvia Helena

- 25 de nov. de 2025
- 2 min de leitura

“Eu queria que a depressão sangrasse. ”A frase do psiquiatra Dr. Luiz Eduardo Xavier ecoa como um grito silencioso, o de milhões de pessoas que sofrem caladas com uma dor que o mundo insiste em não enxergar.
A depressão é uma doença que não deixa feridas aparentes, mas dilacera por dentro. Quem está de fora vê alguém aparentemente “inteiro”: trabalhando, estudando, conversando, sorrindo em algumas fotos. Mas o que não se vê é o esforço sobre-humano para existir, levantar da cama, responder a uma mensagem, cumprir o básico.
Se a depressão sangrasse, talvez houvesse mais empatia. Talvez as pessoas entendessem que não se trata de fraqueza, preguiça ou falta de fé, mas de uma condição que envolve corpo, mente e contexto. Uma doença que altera o funcionamento do cérebro, os padrões de pensamento e a forma como a pessoa se enxerga e enxerga o mundo.
O olhar da Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC)
Na TCC, entendemos a depressão como um ciclo que se retroalimenta: pensamentos negativos e automáticos (“não vou conseguir”, “não tem mais sentido”) geram emoções dolorosas (tristeza, desesperança), que reduzem a energia e levam à inatividade, o que, por sua vez, reforça a crença de que “nada vale a pena”.
O trabalho terapêutico é, aos poucos, quebrar esse ciclo. Isso acontece por meio de estratégias como:
Psicoeducação: compreender a doença, suas causas e sintomas, ajuda a reduzir a culpa e o medo.
Reestruturação cognitiva: identificar e questionar pensamentos distorcidos, substituindo-os por interpretações mais realistas e compassivas.
Ativação comportamental: planejar pequenas ações significativas: levantar, tomar sol, enviar uma mensagem, que reativem o contato com a vida e com o prazer.
Treino de habilidades emocionais: aprender a lidar com recaídas, frustrações e autocrítica.
Esses passos não apagam a dor de um dia para o outro, mas constroem um caminho de retomada. Um passo de cada vez, um gesto de autocuidado por dia.
Um convite ao cuidado
Tratar a depressão é cuidar de uma ferida que não se vê, e que, mesmo assim, pede atenção, paciência e acompanhamento. Com o tempo, a dor deixa de ser o centro, o corpo volta a respirar e o pensamento reencontra leveza.
Mesmo que a depressão não sangre, ela é real. E reconhecer isso é o primeiro passo para que, enfim, possa começar a cicatrizar.
Silvia Helena dos Santos — Psicóloga
CRP 06/80275 🦋



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