Quando o Vínculo se Torna Opcional
- Silvia Helena

- 11 de nov. de 2025
- 2 min de leitura

Ela chegou ao consultório com o peito apertado — não apenas pela própria dor, mas pela dor do filho.
Desde o divórcio, há quatro anos, o pai do filho adolescente aparece quando “dá”. Não há rotina, não há previsibilidade. Ele surge e desaparece, sempre com um motivo: dor de cabeça, muito trabalho, noite mal dormida. Quando aparece, tenta compensar o vazio com gestos caros — restaurantes sofisticados, presentes novos, passeios que custam caro. Como se o vínculo pudesse ser comprado, e não cultivado. Como se estar presente fosse uma questão de conveniência, e não de compromisso afetivo.
Enquanto isso, o menino foi se recolhendo. Hoje, quando está com o pai, quase não fala. Responde por monossílabos, se refugia no celular. O pai se queixa: “ele não conversa comigo”. A mãe escuta, entre triste e revoltada, porque parece tão óbvio o motivo. Mas o óbvio, quando envolve afeto, costuma ser o que menos se enxerga.
Do ponto de vista psicológico, vínculos se constroem a partir de previsibilidade e presença emocional — dois pilares da segurança afetiva. Não é a quantidade de tempo, mas a qualidade da presença que comunica ao filho: “você é importante, eu estou aqui.”. Quando essa presença é irregular, o cérebro da criança ou do adolescente aprende a não esperar — e o coração aprende a se proteger. É um mecanismo natural: diante da frustração repetida, o afeto se retrai para não doer tanto. O distanciamento, então, deixa de ser desinteresse: vira autoproteção emocional.
E essa história, infelizmente, não é isolada. Há muitas mães e filhos vivendo o mesmo enredo: pais que se separam das mulheres, mas também se divorciam da função emocional de ser pai. Que acreditam que a responsabilidade termina quando termina o casamento. Mas a parentalidade não se dissolve com a separação. Ela exige continuidade, constância e afeto. Existem, sim, obrigações afetivas — aquelas que envolvem estar, cuidar, perguntar, participar, sustentar emocionalmente. É o que dá base à autoestima, ao senso de valor e à capacidade de confiar nos outros. Quando isso não acontece, o nome técnico pode ser "abandono afetivo": uma forma de negligência emocional, em que o pai (ou a mãe) se ausenta não apenas fisicamente, mas também simbolicamente. E o dano, nesses casos, é profundo. Não é o esquecimento de datas ou visitas, mas o silêncio emocional que ensina o filho a não esperar mais.
Porque amor de verdade não é visita marcada. Não é quando sobra tempo. É quando há vínculo, constância e cuidado — mesmo nos dias comuns, mesmo quando não é fácil.
Porque amar não é aparecer quando dá. É estar, sempre que importa.
Silvia Helena dos Santos Psicóloga | CRP 06/80275 🦋



Comentários